ANO: 25 | Nº: 6306

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
30/03/2019 Marcelo Teixeira (Opinião)

Ainda que...

Sem entrar no mérito da conduta daqueles que insistem em apagar do passado os vestígios deixados por seus adversários ou desafetos, é lamentável que os tempos atuais sejam tão pródigos nestas tentativas. Algumas delas até apresentam algum fundamento ao tentar corrigir a versão criada por aqueles que, no passado, ocupavam uma posição que lhes permitia ou autorizava construir uma narrativa favorável, pintada com tintas mais fortes ou mais fracas, conforme a conveniência da época. Depois disso, o tempo se encarregava de consolidar a versão.
Mais cedo ou mais tarde, porém, o mesmo tempo que ajudava a consolidar a versão, podia corroer a narrativa e deixar transparecer que a verdade não era bem aquela que contavam, abrindo a brecha para o tal do "revisionismo histórico" que, muito mais do que corrigir versões mal contadas, muitas das vezes busca simplesmente suprimir da história ou, pelo menos, demonizar as antes glorificadas figuras de seus adversários que, mal ou bem, determinaram o nosso presente com sua atuação no passado.
E quando digo "mal ou bem" é literalmente, ou seja, convicto de que nossos inimigos nos ensinam muito mais do que os nossos amigos, não podemos deixar de reconhecer que mesmo figuras abomináveis, criminosas, maldosas etc, foram determinantes do presente que vivenciamos. Não precisamos louvar ou continuar louvando os mesmos, mas convém não esquece-los e esta é uma das funções mais importantes da história. Preservar a memória também dos personagens e páginas infelizes da nossa história para que seus erros não se repitam no futuro.
Mas muitos revisionistas da história, movidos quase sempre por um revanchismo ideológico, intencionam apagar, subverter ou desconsiderar o contexto para amaldiçoar fatos ou registros, como se eles fossem contemporâneos. Prova disso são as pérolas como condenar a obra de Monteiro Lobato (principalmente "O Sítio do Pica-Pau Amarelo") pelo conteúdo racista. Deslegitimar, por lei, a eleição de todos os presidentes da república de 1964 a 1985. Trocar o nome da Castelo Branco (principal avenida de acesso a Porto Alegre) para "Legalidade e Democracia". Sem falar na imposição do discurso politicamente correto reescrevendo o clássico "Atirei o Pau no Gato".
Mudou o governo, mas infelizmente a prática teve continuidade, apesar da mudança de lado, direção ou sentido. Infeliz e absolutamente desnecessária a recente tentativa do governo de querer celebrar o triste episódio do golpe de 1964 que aniversaria amanhã (ou depois de amanhã... há controvérsias!).
Ainda que tenha sido um movimento político necessário para interromper o avanço comunista; ainda que tenha sido em defesa da liberdade; ainda que tenha contado com o apoio da opinião pública e publicada; ainda que tenha proporcionado um salto na infraestrutura do país etc; isso tudo não muda o fato incontestável de que a Constituição Federal foi desrespeitada pelos famigerados Atos Institucionais que foram criativamente inventados por aqueles que queriam legitimar aquela ação francamente ilegítima e que, daí, resultaram abusos de autoridade que se concretizaram em censura, tortura e assassinatos. O fato é que o fim não justifica os meios. E contra fatos não há argumentos!
Aproveitando o lema bíblico adotado por Bolsonaro: "...e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará." (João 8, 32), parece que o próprio presidente ainda não foi libertado. Ainda está preso numa mentira e, o pior, querendo usar sua posição para impor essa mentira, como tantas vezes seus antecessores fizeram nos últimos anos. Menos mal que a turma do "deixa disso" entrou em campo e o presidente voltou atrás, sem negar seu entendimento sobre o episódio, mas rendendo-se à reação negativa por parte daqueles que já foram libertados desta mentira há décadas.

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