ANO: 25 | Nº: 6362

Airton Gusmão

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Pároco da Catedral
30/03/2019 Airton Gusmão (Opinião)

Misericórdia: o agir do Pai e o critério para dizer se somos filhos

“Um homem vivia sempre sereno e atraía a atenção de todos que paravam para conversar com ele. Todos estavam curiosos por saber qual era o motivo de sua constante alegria e bondade. Um dia, o rei o procurou e ficou conversando: você anda sempre alegre. Nunca se preocupa com seu destino? Nunca pensa nos pecados dos quais Deus vai pedir conta? O homem respondeu: o senhor tem toda a razão em dizer que a gente deve dar conta do mal que faz. Eu penso e faço assim: imagino que a gente está amarrado a Deus por uma corda. Como assim? perguntou o rei. Quando a gente peca, corta esta corda. Mas quando a gente se arrepende e pede perdão, o que Deus faz? Ele pega as duas pontas da corda e faz um nó para reatá-la. Deste jeito a corda fica mais curta e a gente fica mais perto de Deus. O rei ficou muito admirado com a sabedoria do homem e entendeu a situação daqueles que, embora pecadores, experimentam a misericórdia de Deus e o amam” (Vivendo e aprendendo: histórias para o dia-a-dia. Editora Mundo e Missão, 2002).

Neste quarto domingo da Quaresma, o domingo da alegria, temos o Evangelho que nos apresenta a parábola do pai com seus dois filhos (Lc 15,1-3.11-32), conhecida como a passagem do Filho pródigo ou do Pai misericordioso. Voltar é retornar à casa depois de ter ido embora. O pai que acolhe o seu filho em casa está tão feliz porque este filho “estava morto e tornou a viver; ele estava perdido e foi reencontrado”.

Na Bula de proclamação do Jubileu extraordinário da Misericórdia, do Papa Francisco, lemos e ouvimos muitas vezes que: “Jesus Cristo é o rosto da misericórdia do Pai e que o mistério da misericórdia é fonte de alegria, serenidade e paz. Misericórdia é o ato último e supremo pelo qual Deus vem ao nosso encontro. É a lei fundamental que mora no coração de cada pessoa, quando vê com olhos sinceros o irmão que encontra no caminho da vida” (O Rosto da Misericórdia, nº 01 e 02).

A etimologia da palavra “misericórdia” provém do latim “misere” (miséria, necessidade) e “cor/cordis” (coração), e identifica-se em ter um coração solidário com os que têm necessidade. A misericórdia bíblica expressa o sentimento que se experimenta perante uma necessidade e infortúnio, assim como a ação que surge desse sentimento; significando ter compaixão e piedade, compadecer-se, sentir afeto entranhável, como uma mãe, ser compassivo, amar, ter carinho, ajudar como fruto de uma relação de fidelidade.

Jesus nos ensina que o Pai do céu é misericordioso e quer que seus filhos e filhas, que se perderam pelo caminho, retornem para casa e Ele fica a esperar por cada um. Para além do pecado cometido pelos filhos, está o Pai com um coração misericordioso capaz de entender o que se passa no coração humano. Nosso coração dever ser marcado pela alegria do irmão ou irmã que estava longe, distante do coração de Deus. Não temos o direito e nem a permissão de Deus para julgar e condenar.

Ainda retomando o texto do Papa Francisco sobre o Rosto da Misericórdia, como exigência para todos nós que também queremos a misericórdia de Deus, é preciso entender que: “Jesus declara que a misericórdia não é apenas o agir do Pai, mas torna-se o critério para individuar quem são os seus verdadeiros filhos. Somos chamados a viver de misericórdia, porque, primeiro, foi usada misericórdia para conosco” (nº 09).

Diante desta reflexão sobre a misericórdia do Pai, precisamos existencialmente, concretamente, nos perguntar: com qual personagem da parábola do Filho pródigo eu me identifico? Sou o filho mais jovem ou o mais velho? Eu me abro para o coração de Deus que é misericordioso como os publicanos e pecadores que se aproximam de Jesus para o escutar? Ou me fecho nas minhas convicções como os fariseus e mestres da Lei, que criticam Jesus por acolher e comer com pecadores?

Precisamos ser misericordiosos como o Pai, porque nos é dito por Jesus: “Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia”. Façamos a nossa parte. Sejamos alegres na esperança, fortes na tribulação, perseverantes na oração e solidários com os que sofrem. Um bom final de semana a todos e até uma próxima oportunidade.

 

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