ANO: 25 | Nº: 6362

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
30/03/2019 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Os fundadores da Loja Amizade

Em 5 de fevereiro de 1893, na Carpintaria, onde se encontrava à frente de numerosa tropa, o general Joca Tavares lança proclamação aos rio-grandenses para que lutassem para reconquistar a liberdade.
Nesse mesmo dia, o caudilho Gumercindo Saraiva defronta-se no Passo do Salsinho, a poucas léguas de Bagé, com a força do Coronel Mena Barreto, derramando-se o primeiro sangue da Revolução Federalista, seguindo-se um ano de embates e feridas, materializado no cerco de Bagé, em que a cidade, sitiada pelos federalistas durante 40 dias, resta com os estigmas e marcas das lutas, mas realçada com a dignidade de heróis como Carlos Teles e João Nunes da Silva Tavares.
Esse clima de luta fraticida e na expectativa de alguma paz, que somente apareceria exatamente um ano depois, não impede o surgimento, em 5 de agosto de 1894, de oficina maçônica, talvez ela mesma um símbolo daquele objetivo superior, com o sugestivo nome de "Loja Amizade", constituída por 10 habitantes da cidade, de diversos matizes políticos e ideologias, mas intencionados em demonstrar o desejo de solidariedade e recíproca estima. Foram eles, Lybio Vinhas, Idalino Campos da Luz, Jorge Reis, os irmãos Rocco e Pedro Cironi, Francisco Chichi, Ferdinando Martino, Antonio Manduca, José Antonio da Silva Ramos e Joaquim Ferreira Nunes.
A preocupação da fraternidade num instante de paixões irreprimidas, a igualdade no torvelinho de egoísmos e controvérsias, a busca da convivência quando a separação se propalava, o desejo de paz quando mais fortes eram as agressões à vida e a liberdade, eis os almejos que buscavam os pioneiros.
Arrecadaram 240 mil réis na reunião original, fixando-se as mensalidade sem dois mil réis. Mais tarde, em sessão especial, resolveram transferir o templo inicial da rua Marechal Floriano, para a avenida General Osório, imóvel adquirido ao doutor Oscar Heinzelmann por quatro contos de réis.
Logo foram aclamados, como os primeiros dirigentes, o doutor Lybio Vinhas, como Venerável; o capitão Idalino Campos da Luz, como primeiro Vigilante; Rocco Cironi, como segundo Vigilante; Ferdinando Martino, como orador; Jorge Reis, secretário; Antônio Manduca, tesoureiro; Francisco Chichi, hospitaleiro; capitão José Antônio da Silva Ramos, como mestre de cerimônias; Pedro Cironi, como primeiro Diácono, e Joaquim Ferreira Nunes, como cobridor. Ou seja, todos ocupados em funções regimentais.
Lybio Vinhas, gaúcho, com 34 anos de idade, casado, médico, ingressou na Maçonaria, em Pelotas, em 4 de maio de 1881, era grau 17 e Venerável 10 vezes, de 1894 a 1898, ininterruptamente; depois em 1902, 1905, 1911, 1913 e 1918; ninguém o foi tantas vezes, o que bem indica a sua liderança comunitária e maçônica.
Falecido aos 72 anos de idade, às 13 horas do dia 30 de agosto de 1932, mereceu do Correio do Sul um longo necrológio, intitulado "Morto Ilustre"que vale registrar:
"A perda que ontem sofreu a sociedade bajeense, com a morte do doutor Lybio Vinhas, é das mais sensíveis e das mais dolorosas. Aqui estabelecera ele domicílio em pleno vigor de uma mocidade fulgurante, trazendo dos bancos de academia um nome querido e laureado como recomendação de capacidade e de afetos. Espírito combativo e formoso, foi de chegada envolvido pelos prélios da política, nos quais tomou parte com exaltação de civismo, chegando mesmo a ocupar postos de elevado destaque nas fileiras do Partido Republicano e nas investiduras do poder.
"Os constituintes do Rio Grande do Sul tiveram nele um companheiro meritoso, quer pela sinceridade e pelo calor com que tornava parte nos debates, quer pelas qualidades intrínsecas de defensor apaixonado de sua causa e de sua gente. Mas não foi na cadeira de deputado, aliás, ocupada com elegância e nobreza, que mais brilhou sua estrela. Aquele homem soberbo, de eloquência vivaz e olhar penetrante, que entrava na vida como um triunfador, tinha um trono a ocupar no coração do povo desta terra. E em todo o trono fulge a coroa dos reis que a ocupam.
"Os exemplos de Azevedo Penna, o médico benfeitor da pobreza, estimulavam então a benemerência dos doutores vindos da corte e da Bahia para o exercício da profissão de Galeno.
"Nicanor Peña, Veríssimo Dias de Castro e ele, Lybio Vinhas, formaram a sublime trindade dos benfeitores dos desvalidos, disputando a palma da vitória, a supremacia do bem fazer.
"Duas paixões distintas, talvez opostas, e talvez mesmo incompatíveis agitavam aquelas três almas dos eleitos: o partidarismo e a filantropia. Mas nem por isso periclitou o apostolado da ciência, como não sofreu solução de continuidade a pugna do civismo. Em campos opostos, digladiando-se como atletas no anfiteatro da política, davam-se em seguida as mãos, no socorro aos necessitados, na prática do bem.


Fontes: Jorge Reis, Apontamentos Históricos e Estatísticos de Bagé, Tipografia Jornal do Povo, Bagé, 1911. História de Bagé no Século Passado, Harry Rotermund, Academia Bageense de Letras, Bagé, 1981. História de Bagé, Eurico Salis, Livraria do Globo, 1955. Edições do Correio do Sul, 30.8.1932; 6 4. 1960; e 16.10. 1960. Edição de O Dever, de 16.10.1909. Atas da Loja Amizade. Palestras do autor nesta cidade.

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