ANO: 25 | Nº: 6333

Dilce Helena Alves Aguzzi

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Psicóloga
02/04/2019 Dilce Helena Alves Aguzzi (Opinião)

O lado negativo do "bom demais"

"O excesso de liberdade só pode converter-se em excesso de servidão, tanto para um indivíduo em particular como para um Estado." Platão

A ideia aqui não é saudosista, retrógrada ou menosprezar os avanços da sociedade ou da tecnologia. A proposta é refletir sobre o quanto certos confortos da vida atual levados a extremos sabotam as inteligências, a espontaneidade, perturbam ou desumanizam.
Agenda do celular - A memória humana deve ser estimulada e exercitada para ter vida longa e desenvolver-se. Utilizando sempre o recurso eletrônico uma ligação é feita de modo mais rápido e prático, porém muita gente não lembra do número de seus principais contatos.
Carro - A praticidade e a utilidade são inegáveis, entretanto a superutilização leva ao sedentarismo, comodismo, verdadeiro enferrujar das articulações.
Escada rolante - Mesmo princípio do carro, contribui para o descondicionamento físico.
Fast food comidas rápidas e alimentos processados - Não vou me pronunciar sobre as perdas nutricionais evidentes que um profissional da área pode aprofundar. Entretanto, diminuem os momentos em família em torno do preparo dos alimentos, contribuem para o desaparecer das memórias afetivas relacionadas às receitas de família e a troca de afetos simbolizada pelo preparo dos alimentos e o tempo empregado nesse ritual.
Câmera fotográfica no celular - O excesso de preocupação com documentação e cuidados com a estética tem prejudicado a valorização dos momentos verdadeiros. Empobrecimento das relações, memórias e vivências em função de uma supervalorização do mostrar depois.
Dados móveis, smartphone, tablete, etc - Todas essas possibilidades (que os pais mais preguiçosos adoram) de distrair crianças em salas de espera, dias de chuva, férias e viagens, estão contribuindo para mais apatia, menos leitura, pouca interação com os mais velhos, pouca tolerância à frustração, mais ansiedade e destruindo com as memórias visuais do trajeto de uma viagem. Qual criança hoje em dia curte a paisagem?
Redes sociais - Criaram conexões, contatos e aproximação. Mas em demasia eliminam a visita pessoal, o abraço e o telefonema que por mais distante que fosse era mais pessoal e atencioso, por exigir mais tempo. Têm contribuído, também, para o isolamento, ansiedade, sensação de inadequação, vazio e inveja.
Velocidade rápida de internet - Superútil, porém fomenta a ansiedade. Todos consideram esperar alguns segundos por coisas comuns do cotidiano como lentidão, tédio, impaciência e espera desnecessária. Na verdade, a praticidade, aqui, contribui para mais ansiedade.
Tudo mais rápido, com pressa, para fazer mais coisas ou ficar mais ansioso por preencher o vazio que se renova pelos hábitos pobres de conteúdo, significados e reflexões, pois a pressa inibe estes processos. O conforto simplificou a vida para sobrar mais tempo para aproveitá-la com quem se ama. Mas nem sempre isso acontece. Muitas vezes apenas produz mais ansiedade, mais cobrança de si mesmo, dos outros e ânsia por trabalhar cada vez mais para ter mais dinheiro que compre mais conforto para fazer com que tudo seja mais rápido... Renovando o ciclo vicioso.
"Édipo não se cegou por culpa, e sim por excesso de informação". (Michel Foucault)


Qual criança hoje em dia curte a paisagem?

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