ANO: 25 | Nº: 6335

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
04/04/2019 João L. Roschildt (Opinião)

Os literais da hipocrisia

O mês de janeiro deste ano foi invadido pela declaração da ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves. Em vídeo que circulou pela internet, dias após a posse do presidente Jair Bolsonaro, ela comemorou o que chamou de uma nova era no Brasil, enfatizando, com alegria, que menino veste azul e menina veste rosa.

Uma hecatombe se instaurou no ambiente progressista. Houve estrondosa histeria na grande mídia, e as redes sociais ficaram abarrotadas de duras críticas. Artistas engajados, comentaristas das mais variadas especialidades e pessoas comuns se uniram contra esse "grande absurdo"; afinal, talvez essa fosse a comprovação explícita da instauração da ditadura.

Mas o caso brasileiro é cômico. Mesmo que Damares tenha dito, logo em seguida à disseminação do vídeo, que "fiz uma metáfora contra a ideologia de gênero", reforçando que as crianças podem se vestir da forma com que se sentirem melhores, não faltaram "adultescentes" divulgando fotos em suas redes sociais que "contrariavam" a afirmação metafórica de Damares. A distância da idade infantil, mas a proximidade com essa mentalidade fez com que homens e mulheres adultos se confundissem com meninos e meninas. Comprovaram que a maturidade não vem necessariamente com o tempo.

Em 05/01/2019, a âncora do Jornal da Globo, Renata Lo Prete, e o correspondente de Nova Iorque, Jorge Pontual, "lacraram": ela usava um vestido azul e ele um blazer rosa. O casal de apresentadores, Luciano Huck e Angélica, também embarcou nessa onda de cores. O sempre "politizado" Bruno Gagliasso também deu sua contribuição ao tom de rosa. Outros inúmeros famosos aderiram a essa "campanha". Já a bela e voluptuosa apresentadora Lívia Andrade, grande estrela do programa "Fofocalizando", divulgou em seu Instagram uma foto em que aparece nua (calmem, pois as partes íntimas estão tapadas com o próprio corpo de Lívia) com a seguinte legenda: "Visto rosa, visto azul e se eu quiser não visto nada!!!". Todos meninos e meninas brincando de cores. E Lívia, no auge de sua inocência...

Tudo isso foi só "lacração" momentânea. Posteriormente, um programa da Globo News, buscando explicar a proposta de Reforma da Previdência, em um quadro comparativo, identificou homens de azul e mulheres de rosa. E a hipocrisia? Fotografias da saída de maternidade do primeiro filho do casal Huck-Angélica mostraram que o bebê estava de azul; já na saída da terceira filha, a pequena estava de vermelho acompanhada de seus dois irmãos, que vestiam camisas azuis. Sobram fotos da filha de Gagliasso abusando (de forma graciosa) de tons de rosa em suas roupas. Já Lívia Andrade voltou a usar roupas e nem mesmo o carnaval 2019 foi capaz de despi-la novamente...

Todavia a doença pode bater a porta da comédia. De acordo com cientistas da University of California, a incapacidade em detectar sarcasmo pode ser sinal de demência. Uma pesquisa anterior, realizada por especialistas da University of Haifa (Israel), mostrou que a falta de compreensão de um sarcasmo mostra danos no lobo pré-frontal do cérebro, o que afeta o entendimento sobre a literalidade de afirmações.

Isso é bastante interessante, afinal, ácidas metáforas, sarcasmos e ironias têm estreita relação. Fico pensando ironicamente: o que será que um progressista pensa quando alguém diz que ele quis "lacrar"?

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