ANO: 25 | Nº: 6312
05/04/2019 Opinião

O homem que mudou a paisagem

por João Batista Benfica

Morreu Aracely dos Santos Menezes, o último dos self-made-man que Bagé teve, provavelmente. O último dos bajeenses que vieram no nada absoluto, da pobreza mais dura, que com trabalho e todos os outros elementos que levam uns poucos a conseguir isso, se tornou milionário, um dos principais empresários da cidade, um dos maiores da sua história.
Trabalhou desde criança, menino de 14 anos, órfão. As pedras que serviram de alicerce para a antiga ponte do Quebracho foram trazidas por ele. Ainda nesta idade, com uma carreta de bois trabalhou numa carvoeira em Hulha Negra, levando o carvão para as locomotivas que passavam por lá. Morava na carvoeira, fazia sua própria comida, os sapatos eram tamancos de madeira por causa da umidade, do frio e do pó de carvão. A primeira evolução aconteceu quando trocou a carreta por uma carroça e cavalos. Carregou lenha para a Caieira Bajeense; brita para o MEC, que estava sendo construído; trabalhou no aplainamento da pista do Aeroporto. Carregava 50 cargas de terra por dia, era o que mais produzia.
Quando foi para o quartel, ficou um ano e 'desarranchou' porque o soldo era melhor e ele continuava precisando sustentar a família. Quando saiu do quartel tinha um problema: não tinha roupas para vestir, só tinha o uniforme de soldado e, claro, quase nada de dinheiro.
Se tornou vendedor por catálogo da Hermes, vendeu livros de direito em sociedade com seu primeiro sócio, Romeu Bina, com quem fundou a empresa Casa eletro-Mercantil, que vendia no início, sobretudo máquinas de costura. Depois que casou, morou no fundo da loja. A sociedade se desfez e então surgiu a Casa Eletro-Máquinas. Em sete anos de trabalho, conseguiu construir o prédio em frente à Praça de Esportes. Isso foi por volta de 1968, quando surgiram os fogões à gás, o que ocasionou uma explosão de consumo. Logo, em seguida, surgiu um novo eletrodoméstico - a televisão -, que gerou outra forte onda. Alguns anos depois, quando um dos filhos se formou em engenharia criou a empresa de construção. Construir era algo que gostava de fazer e já vinha fazendo. A partir daí, fez surgir uma das principais empresas de construção de Bagé.
Quem conheceu Aracely Menezes, nos últimos 20 anos, conheceu um senhor de cabelos brancos, normalmente vestido com terno e gravata, sério e ao mesmo tempo simpático e bonachão, camarada com todos, uma águia para negócios, duríssimo numa negociação, e ao mesmo tempo, um sujeito participativo, que às vezes parecia arroz de festa, ia, sem dificuldade, na maioria dos eventos em que o convidavam .
Sem ter o ensino primário completo, não recordo em todo o tempo que convivi com ele, de tê-lo ouvido pronunciar uma palavra errada que fosse, como se vê tanto hoje em dia. Era simples, sem pose e sem ostentação. Veraneava no Cassino, só no fim da vida se animou a realizar um sonho, ter um Mercedes-Benz e, ainda assim, não comprou dos mais caros. Acreditava muito pouco em propaganda, trabalhava duro, montou seus negócios em torno da família, erigiu um belo edifício só para juntar todos, e nunca quis abrir filiais em outras cidades. Sempre acreditou que deveria investir seu dinheiro em Bagé. Convencê-lo a abrir filial em Aceguá não foi muito fácil. Se orgulhava de não sonegar impostos.
Me contou que às vezes ia nos lugares da sua infância. Disse, também, que empregar 250 funcionários, ser responsável por eles, era algo fantástico, maravilhoso.
Mas quem não conheceu Aracely Menezes pode olhar para a sua cidade. Ao longo de sua vida, levantou edifícios por todos os lados. Baratos, médios, caros. Por mais de 40 anos construiu sem parar. Enquanto terminava um edifício começava outro. Houve época em que praticamente só ele construía apartamentos.
Quem não o conheceu não conhecerá mais. Mas basta olhar para a cidade e perceber que boa parte dos edifícios que a compõem foram erigidos por ele, um homem que teve uma história como poucos tiveram, que conseguiu vencer a pobreza e a falta de estudo, que conseguiu se tornar um bajeense como poucos foram, tanto que mudou a paisagem da sua cidade.

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