ANO: 25 | Nº: 6382

Airton Gusmão

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Pároco da Catedral
06/04/2019 Airton Gusmão (Opinião)

O perdão como força que ressuscita para uma nova vida

Estamos ouvindo e acolhendo no Evangelho deste quinto domingo da Quaresma esta frase de Jesus: “Quem dentre vós não tiver pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra” (Jo 8,1-11).
Ainda repercute em nossos ouvidos e corações a experiência de textos anunciados e vividos por toda a Igreja no Ano da Misericórdia, e que precisa ser uma constante na vida de cada cristão. Lembramos aqui uma dessas preciosidades escritas pelo Papa Francisco, quando diz: “Em todas as circunstâncias, o que movia Jesus era apenas a misericórdia, com a qual lia no coração dos seus interlocutores e dava resposta às necessidades mais autênticas que tinham. É preciso voltar ao essencial, para cuidar das fraquezas e dificuldades dos nossos irmãos. O perdão é uma força que ressuscita para nova vida e infunde a coragem para olhar o futuro com esperança” (O Rosto da Misericórdia, nº 08 e 10).
Um santo da Igreja cunhou uma frase que sempre deve nos animar na esperança de acreditar no perdão de Deus e na graça da conversão e do arrependimento em todos os tempos e lugares: “Não há santos sem passado, nem pecadores sem futuro” (Cardeal Van Thuan).
Diante da iminência do apedrejamento daquela mulher pelos fariseus que, baseados na lei, se achavam ‘justos e santos’, Jesus responde: “Quem dentre vós não tiver pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra”. Ninguém de nós tem um passado totalmente limpo, livre de erros e pecados. E mesmo que existisse alguém com pouca experiência de pecado, ninguém de nós está livre de nunca pecar. Todos nós somos pecadores e necessitados de perdão.
Neste episódio dos apedrejadores e da mulher acusada, Jesus não recusa o juízo de Deus, mas deseja que os fariseus o apliquem primeiramente a si mesmos. Assim, Jesus se apresenta nesta cena como o enviado do alto que mostra o rosto misericordioso de Deus, mas também o seu juízo. A justiça do ser humano é, principalmente, condenatória e excludente, diferente do juízo de Deus, pois a sua justiça é feita de perdão e de orientação para a mudança de vida: “Eu também não te condeno. Podes ir, e de agora em diante não peques mais”.
Jesus não aprova o pecado, mas não condena a pecadora. Mostra assim que o importante é a conversão das pessoas, não a sua condenação. Somos convidados, portanto, a acolher, valorizar, celebrar e viver o Sacramento da Reconciliação. E quando acolhemos e experimentamos o perdão e a misericórdia de Deus, recebemos e vivemos uma vida nova, não ficando presos ao passado pela lembrança dos nossos pecados, remoendo experiências ruins que já foram perdoadas.
Por isso, o profeta e o apóstolo nos animam a uma vida reconciliada com Deus e com os irmãos, com sentido e esperança, quando nos dizem, respectivamente: “Não relembreis coisas passadas, não olheis para os fatos antigos. Eis que eu farei coisas novas, e que já estão surgindo” (Is 43,18-19) e “Esquecendo o que fica para trás, eu me lanço para o que está na frente. Eu fui alcançado por Cristo Jesus e, por isso, agora corro para alcançá-lo” (Ef 3,8-14).
Na perspectiva de Deus, não são o castigo e a intolerância que resolvem o problema do mal e do pecado; só o amor e a misericórdia geram vida e fazem nascer o homem novo. É esta lógica de Deus que somos convidados a assumir na nossa relação com os irmãos. Deus não quer a morte daquele que errou, mas a libertação plena do homem e da mulher. Só a misericórdia e o amor são capazes de mostrar a falta de sentido da escravidão e de soprar a esperança, a ânsia de superação e o desejo de vida nova. A força de Deus não está no castigo, mas está no amor misericordioso.
Sejamos misericordiosos. Façamos a nossa parte. Sejamos alegres na esperança, fortes na tribulação, perseverantes na oração e solidários com os que sofrem. Um bom final de semana a todos e até uma próxima oportunidade.

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