ANO: 25 | Nº: 6353

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
06/04/2019 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Os fundadores da Loja Amizade

A fatalidade os separou finalmente: Veríssimo e Nicanor para a morte e Lybio para a vida.
Para a vida ou para a morte, os três para a glória. Este que ainda ontem sobrevivia aos despojos dos dois competidores mortos, não fora menos digno que eles do beijo da eternidade. Morreu como vivera: coberto pelas bênçãos de uma sociedade em peso. Fez o extinto curso preparatório no Rio de Janeiro e os de Medicina, nas Faculdades do Rio e da Bahia, tendo colado grau nesta última. Dos postos políticos que ocupou consta de membro da Comissão Executiva do Partido Republicano no município. Em pleito memorável, tendo como antagonista o Coronel José Otávio Gonçalves, disputou a curul intendencial de Bagé, alcançando maioria apreciável sobre seu competidor. Foi isto na época em que o Sr. Borges de Medeiros iniciava no Rio Grande do Sul sua política de absorção e autoritarismo, que tão nefasta foi ao Estado.Vitorioso nas urnas, Lybio Vinhas foi esbulhado por um decreto do ditador prepotente, anulando o pleito. "
O jornal ainda anunciava que haveria cerimônia maçônica na Loja Amizade e encomendação do corpo na Igreja de São Sebastião. Estampava o decreto de luto oficial por três dias, assinado pelo prefeito, Coronel Juvêncio Lemos.Chama atenção também, que em memória do morto, diversas pessoas enviavam donativos àquela folha, para distribuição entre os pobres, avultando a de seu irmão de fraternidade, Idalino Campos da Luz, que mandava duzentos mil réis, para alguns necessitados de idade mais avançada.
Jorge Reis, bajeense, aqui nascido em 4 de janeiro de 1865, então com 41 anos de idade, solteiro, advogado, foi iniciado na Loja Fraternidade desta cidade em 14 de agosto de 1878, sendo grau 3.
Professor, funcionário municipal, ajudante de procurador da República e jornalista; historiador, biógrafo, era presença constante à frente de todos os movimentos culturais e de benemerência, homem de imensa utilidade para a coletividade. Entre seus livros, Biografia do coronel João da Silva Tavares, Emílio Luiz Mallet, Acrônica histórica, Forte de Santa Tecla, Homens do Passado e a clássica e imorredoura obra Apontamentos Históricos e Estatísticos de Bagé, editada pela Tipografia do Jornal do Povo, de Bagé, em 1911, elaborado em face de desempenhar a função de encarregado da Estatística Municipal, e considerada a primeira história da cidade. Faleceu em 10 de abril de 1924, aos 59 anos de idade, deixando indelével rastro como maçom, homem público e historiador.
Idalino Campos da Luz, também gaúcho, com 48 anos, oriundo de Canguçu. Era tabelião, tendo começado no Oriente de Pelotas, em 12 de julho de 1887, e ainda frequentado a fraternidade de Piratini. Era titular do 1º Cartório do Cível e Crime do Forolocal, onde com exação e dinamismo deixou implantada uma filosofia de trabalho e atenções sempre obedecidas por seus descendentes. De grande participação comunitária, bastando referir-se que por 50 anos exerceu o cargo de tesoureiro da Santa Casa de Caridade, onde ocupou outros postos, inclusive a Provedoria. Grande amigo de Lybio Vinhas, adquiriu a Silveira Martins a casa onde viveu na rua Flores da Cunha, onde residiram seus pósteros.
Ferdinando Martino, consta ter nascido em Salerno, Itália, em 7 de fevereiro de 1858, mas sua documentação maçônica atesta haver nascido em nosso estado. Tinha 39 anos de idade, disse ter a profissão de agente, havendo também a informação que era boticário; era casado, tendo dado seus primeiros passos na então Loja Fraternidade, cujos documentos foram perdidos e extraviados durante o cerco de Bagé. Foi operário, mascate, prosador, jornalista e médico homeopata. Fundou o jornal O Bageense, em 1897. Colaborou no Almanaque Literário e Estatístico do RS, de Alfredo Ferreira Rodrigues. Também escreveu no jornal Corimbo, das irmãs Revocata de Melo e Julieta de Melo Monteiro, periódico que durou 60 anos, de 1883 a 1941. Também publicou trabalhos no jornal Escrínio, de Andradina de Oliveira, extraordinária intelectual de sua época, que aqui lecionou de 1898 a 1900, quando levou seu jornal para Santa Maria em 1901, e depois para Porto Alegre. Poeta e conferencista. Publicou O caloteiro, conferência humorística literária, editada em 1910 pela Tipografia e Livraria Popular Irmãos Cironi, Bagé, seus irmãos de quadro. Além desta, o poema Um beijo, Cena Celeste, poesia dialogada, em 1889; o soneto Ao meu cavanhaque, ainda em 1899 e a narrativa Brincos fatais em1913. Pai do advogado e jornalista Ferdinando de Martino Filho, tendo falecido, aqui, em novembro de 1909.
Antonio Manduca, italiano, com 39 anos, casado, comerciante, provinha também da Loja Fraternidade, onde seus históricos maçônicos foram perdidos pela razão acima referida.
Iniciou sua atividade com uma mercearia na rua Marechal Floriano, e nesta atividade instalou a primeira fábrica de gelo nesta cidade. Seu irmão era proprietário do Hotel Paris, localizado onde hoje está o Clube Comercial. Conta-se que o imóvel foi oferecido a Antonio por um conto de réis.Tendo eles somente 800 mil réis negou-se a adquiri-lo a prazo, mesmo com a oferta de Lybio Vinhas e outros irmãos que desejam emprestar-lhe a quantia que faltava, o que recusou, polidamente, para não se endividar ou incomodar outras pessoas. Os móveis que ornamentam a loja, alguns provieram da extinta Loja Fidelidade e Progresso, notadamente alfaias e tecidos, mas a maior parte representa foi doação de dona Hortência Gottuzo de Souza, esposa de Carlos Reverbel de Souza, ela descendente deste honrável fundador.

Fontes: Jorge Reis, Apontamentos Históricos e Estatísticos de Bagé, Tipografia Jornal do Povo, Bagé, 1911. História de Bagé no Século Passado, Harry Rotermund, Academia Bageense de Letras, Bagé, 1981. História de Bagé, Eurico Salis, Livraria do Globo, 1955. Edições do Correio do Sul, 30.8.1932; 6 4. 1960; e 16.10. 1960. Edição de O Dever, de 16.10.1909. Atas da Loja Amizade. Palestras do autor nesta cidade.

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