ANO: 25 | Nº: 6256

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
11/04/2019 João L. Roschildt (Opinião)

A imoralidade dos bebês

Ao dirigir-me para a saída de uma biblioteca, encontrei, em uma mesa, uma edição da revista Veja com a seguinte manchete: “Cadê os bebês?”. Na capa, havia dois bebês em uma maternidade praticamente vazia, ao mesmo tempo em que podia ser lido que a taxa de natalidade estava em queda no Brasil. Tão antigo quanto o hábito de frequentar bibliotecas, era o ano da revista: 2008.

Ironias à parte, o que chamou atenção foi o fato de que, na reportagem, havia o apontamento de que a redução da população significaria uma melhor preservação da natureza. Isso me trouxe à memória uma ideia cada vez mais comum de ser encontrada entre higienistas sociais: a perspectiva de que ter filhos e aquecimento global casam muito bem. Pior. Ter filhos é imoral por ser a fonte de tais alegadas mudanças climáticas.

É bom recordar que, em 2017, a aclamada feminista Gloria Steinem declarou, em entrevista, que a destruição de nosso clima se deve à população, acrescentando que “se não tivéssemos sistematicamente forçado as mulheres a terem filhos que elas não querem ou que não podem cuidar por mais de 500 anos de patriarcado, nós não teríamos os problemas climáticos que temos”. Tão óbvio como compreender que o meio ambiente também foi (e é) instrumentalizado pelo progressismo para impor suas bandeiras, é detectar que, para Steinem, a solução fácil, óbvia, simples e objetiva para salvar o clima estaria na legalização e ampliação das possibilidades de aborto.

Isso foi um prenúncio do que se veria com maior organização e intensidade no início 2019. Em março, o The Guardian noticiou que há um grupo de mulheres que se recusam a ter filhos até que as alterações no clima cessem. São as birthstrikers, ou grevistas do nascimento. Esse movimento ganhou mais visibilidade após a queridinha da esquerda norte-americana, a jovem congressista e socialista Alexandria Ocasio-Cortez, ter declarado por meio de uma live no Instagram que, em razão de haver um consenso científico de que a vida das crianças se tornará muito difícil em razão do aquecimento global, isso autorizaria os jovens a fazer uma pergunta legítima: “É certo continuar tendo filhos?”. Lembrando que essa é a mesma política que, em uma entrevista, afirmou que o mundo acabará em 12 anos, caso nada seja feito para reverter os efeitos das mudanças no clima, o que gerou, diante dessa previsão, aplausos efusivos por parte dos presentes.

Reparem que o questionamento moral para a geração de novos bebês está atrelado, capciosamente, à ideia alarmista de que o planeta não suporta mais seres humanos. Se, efetivamente, pereceremos em um período muito curto (somente na mente insana daquela congressista!), não poderia o Estado limitar o número de filhos? Ou até mesmo proibir? Caso a situação caótica descrita por essas “brilhantes” intelectuais, algo requentado do que já foi dito (e não foi comprovado) por “estudiosos” (em outras épocas), lograr êxito, qualquer proibição estatal encontra “sólidas” justificativas.

Esquerdistas e “revolucionários” amam o Estado, o meio ambiente e a humanidade, mas têm grande dificuldade em lidar com pessoas de carne e osso. Da sujeira intelectual que preenche as entranhas progressistas, brotam ideias e políticas assépticas de eliminação dos indesejáveis. Para essas mentes, bebês devem ser meros registros em capas de revistas.

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