ANO: 26 | Nº: 6588
11/04/2019 Segurança

Ex-diretora é absolvida de tentativa de homicídio de ex-marido

Foto: Tiago Rolim de Moura

Julgamento durou toda a terça-feira
Julgamento durou toda a terça-feira

Na terça-feira, o salão do júri do Fórum da Comarca de Bagé sediou o julgamento da ex-diretora Marcela Ximendes Vaz, de 40 anos, que era acusada de ser mandante de uma tentativa de homicídio praticada por dois menores de idade, tendo como vítima o ex-marido dela, o policial civil José Geraldino Vaz. O fato ocorreu no dia 30 de dezembro de 2013. O júri popular absolveu a ré.

O julgamento começou às 9h30min da manhã e se estendeu até as 20h da terça-feira. Durante as oitivas, o primeiro a falar foi a vítima, José Geraldino Vaz, que defendeu a inocência da ré, dizendo que tudo foi armado e executado pelo menor de 17 anos (na época do fato), que era namorado da sua ex-esposa. “Em outubro de 2013, já estávamos separados. Eu queria comprar a parte dela do nosso imóvel, morávamos na mesma casa, em quarto separados. Nunca tivemos problema com a separação do patrimônio. Em dezembro, até saímos em uma ocasião e ela queria a reconciliação do nosso casamento. Não sabia do namorado dela, nem da tatuagem (que Marcela e o namorado na época menor de idade tinham com o nome um do outro no pescoço)”, detalhou. Ele contou que, no dia do fato, ela não pediu para ele abrir o portão, que, segundo o depoimento do namorado, era o plano deles de atrai-lo para fora e eles o matarem. “Eu que pedi pra fechar, disse que não iria entregar a minha chave para ela, pois ela já havia perdido uma chave. Foi então que fui alvejado pelos dois menores”, completou.

Vaz foi alvejado com 12 tiros, mas apenas dois disparos acertaram ele, na perna. “A principio, quando fui levado para o pronto-socorro achei até que poderia ser coisa da Marcela. Ela achava que era um assalto”, ressaltou.

Outra situação foi a arma do crime, que, segundo a vítima, a sua ex-esposa sabia onde estava e que foi furtada em um dia que ninguém estava em casa. “Tínhamos um vizinho que estava estudando para concursos e eu emprestava uns DVDs. No dia que ele foi me devolver, informou que viu o adolescente (namorado de Marcela) sozinho na casa e, após, eu encontrei o meu guarda-roupas revirado e a arma não estava mais no local. A Marcela nunca mexeu em armas, nem gostava, e então eu sabia que estava com outra pessoa”, explicou.

Vaz também falou que a informação de que a ex-mulher teria tentando envenená-lo era tudo fantasia do menor, que informou em depoimento para a polícia e em juízo que ela já havia tentado matar o marido de tal modo. “O guri (namorado) era usuário de drogas. Os depoimentos e as histórias que ele contou são tudo fantasia. Ele me acusava de agredir Marcela, mas nunca bati nela e também ele disse que eu havia estuprado ela. Isso nunca aconteceu”, afirmou. O policial civil ainda contou outros detalhes. “Um mês antes do fato, um vizinho desse rapaz o ouviu dizendo que iria me matar, que somente assim eles poderiam ficar juntos, ele e a Marcela”, destacou.

O segundo a ser ouvido foi o menor (namorado de Marcela), que já respondeu no Juizado da Infância e da Juventude e ficou apreendido no Centro de Atendimento Socioeducativo em Pelotas pela tentativa de homicídio. Em depoimento, ele preferiu ficar calado e somente disse que temia por sua integridade. “No dia que fui apreendido sofri agressões físicas e não quero seguir respondendo nada”, ressaltou. A outra testemunha de acusação foi o outro menor que teria sido pago para auxiliar o “namorado de Marcela” a matar o ex-esposo. Ele também preferiu ficar em silêncio.

A acusação ainda chamou os policiais civis envolvidos no inquérito sobre o crime. Segundo um deles, ele teve conhecimento da ocorrência 30 minutos após o fato ter ocorrido. “O Geraldino estava numa maca (no hospital), com a perna sangrando, mas consciente e, então, ele disse que achava que era coisa de uma desavença que ele tinha ou então da Marcela. Então, a gente pediu uma interceptação telefônica do telefone dela e também um policial ficou sempre com ele no hospital e depois em casa”, informou. Ele mencionou que começaram a investigação sem ter informações nenhuma e que uma mobilização grande foi feita para desvendar o crime. “Chegamos até o menor (namorado de Marcela) quando uma informação de uma criança, que disse que viu os dois jovens correndo e entrando em um táxi em frente a um edifício. Nas imagens, chegamos até a rede de táxis, ao motorista que fez a corrida e então até o menor que tinha efetuado os disparos, ele e o amigo. Quando conseguimos um mandado de busca e apreensão, fomos até a casa dele, entramos no local e então vimos paredes pintadas com declarações de amor da Marcela, uma lata de bombom com várias cartas, frases de amor até no banheiro do quarto do jovem”, enfatizou.

O policial então ouviu o jovem em depoimento, na companhia do pai dele. “Ele contou que ela (Marcela) se aproximou dele na escola que ele era estagiário de informática. Ela oferecia rapadura, adicionou ele no Facebook e, segundo ele, eles conversaram. Então ela que teria investido e que queria secar as costas dele no banho”, declarou o policial civil. Após, ele disse que eles armaram a morte do Geraldino, e que para o amigo de 16 anos ela teria oferecido a quantia de R$ 6 mil a R$ 8 mil, que seria o primeiro salário que ela receberia após a morte dele. “Ela emprestava o carro dela para ele dirigir, inclusive uma vez a Polícia Rodoviária Federal estava realizando uma blitz e então eles pararam antes da barreira e trocaram o motorista, mas foi avistado pelos policiais que era o menor dirigindo, eles iam para Hulha Negra, Candiota. Ela trabalhava lá e levava ele, então foi dada uma multa. O adolescente contou que o Geraldino seguia ele, quando estava com o carro, que eles tinham uma tatuagem, um com o nome do outro, que ela, inclusive, assinou como representante legal no tatuador e que ela plantava na cabeça dele que somente seriam felizes se se livrassem da vítima”, acrescentou.

Quanto à arma utilizada pelo menor, o policial comentou que ele disse, em depoimento, que ela ia entregar para um advogado, seu parente, para dar fim a ela. “Inclusive, com o rastreamento telefônico, chegamos a um ponto que realmente ela estava. Além disso, os advogados teriam ido depois, quando ele estava apreendido na Case, para assumir a culpa total. Eles se passaram por advogado do menor. Na época fomos lá conversar com ele e ele contou isso. O outro menor contou a mesma versão, fizemos análises de dados telefônicos, no dia do crime, e eles ficaram se falando em viva-voz, com mais de 18 chamadas e sendo uma de 10 minutos no momento do fato”, conclui.

Outras duas testemunhas de acusação que foram ouvidas foram os pais do menor. O pai destacou que pediu que ele sempre falasse a verdade e que acreditava que ele foi motivado por Marcela para cometer o crime. “Eu era contra o relacionamento, mas ela dava dinheiro para ele e ele se dizia apaixonado por ela. Eu acompanhei todo o depoimento. Ela comprou a munição em Aceguá para eles utilizarem no crime”, disse. Já a mãe falou sobre todo relacionamento e, após a visita dos advogados da Marcela na Case, registrou uma ocorrência. “Fiquei muito preocupada. Ele me contou toda história, disse que ela dizia para ele que para poder ficarem juntos somente se o marido dela não existisse”, comentou.

Declaração de inocência

Marcela, ao júri, declarou inocência de imediato. “Não sou um gênio, mas não sou leiga. Admito que tinha esse romance, me apaixonei, mas não sabia de nada disso. Ouvi os tiros e nem imaginava que tinha sido ele. Não sei nada sobre a arma. Falava com ele sempre, nos ligávamos direto, por isso das ligações no dia", relatou, ao mencionar que, mesmo assim, temia: "Ele me dava toque e eu tinha que ligar, ele me ameaçava”.
Ela disse que está morando em Santa Catarina, na atualidade, e que pediu exoneração devido a toda a situação, que perdeu a guarda do filho, que mora com o pai em Santa Maria. “Estou tentando continuar minha vida, errei em ter me relacionado com o menor e nunca soube dessa visita dos advogados na Case. Quanto ao outro menor, não ofereci dinheiro algum e somente conhecia ele de vista”, resumiu.
Uma amiga da acusada, professora, também foi ouvida e contou que Marcela, de fato, tinha medo do menor. “Ele ligava toda hora para ela, mandava mensagem, ela tinha medo dele. Ameaçava que ia fazer um escândalo”, frisou.

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