ANO: 25 | Nº: 6260
12/04/2019 Luiz Coronel (Opinião)

Ponto & pesponto

 

Só quem chega de longe sabe dizer o que sentiu: a cidade nos envolvendo com os braços de rio.

Direis: - A verdade aproxima. Mas é o mito que nos ata. Um homem sem suas lendas está de tamanco e gravata.

Ante os jovens, o Quintana não se inquieta nem bajula: "– Eles não cantam, gritam. Eles não dançam, pulam."

Na Europa, há gregos, ingleses... O velho Borges fulmina: " – O europeu só existe na América Latina".

A memória pede pista, curve o corpo, solte as rédeas. A imaginação transforma más lembranças em comédias.

Os ventos batem às portas, são tiros na madrugada. Apavorados fantasmas se despencam pela escada.

O futuro tira a máscara: do passado vê-se os traços. O presente abre as portas: o futuro dá três passos.

Mentem os olhos e os gestos e a mais refinada escrita. Só não mentem os olhos quando nos olhos se fita.

Santos cobertos de roxo na penumbra das igrejas. Em vez de sinos, matracas. A gente reza...e boceja!

Reina o sexo sobre o mundo, com irrefreável magia. Em seus exíguos momentos, giram os ponteiros dos dias.

Ó tempo de falsos ídolos, fantasmas em densa bruma! São estrelas de isopor em passarelas de espuma.

Há poesia nos trapézios, nos barquinhos de sarjeta. Em arte, arranha-se a alma, ou se guarda nas gavetas.

Contemple a Torre de Pisa com atual ponto de vista: gentilmente ela se inclina para saudar os turistas.

Ao investir no amor capriche nas proporções. Mantenha, com unhas e dentes, maioria das ações.

O redentor é o regente. Lá do alto, ele agradece os aplausos pela regência das escolas que desfilam na Sapucaí.

Deus, ao andar pelas cidades e florestas perfeitas, a quem há de preferir? Aos homens ou às borboletas?

Há homens que, ao morrer, provocam notícia, alvoroço. Mas não verás uma lágrima orvalhando um suave rosto.

Quem habita uma milonga logo em seguida constata: por fora, certa euforia; por dentro, vida pacata.

São seis trilhões de galáxias, sendo a Terra um grão de areia. Deus aqui fez sua morada e passeia na lua cheia.

Deixo-as na biblioteca. Ai, Meus Deus, que horror! Lá vem a faxineira com o seu truculento aspirador...

Nas águas do rio do tempo, passam contentes e aflitos. São turistas, são romeiros, nas correntezas do mito.

Pois assim são os gaúchos, além do sotaque e visual, estabanados no alegórico, cautelosos no essencial.

É meu nome em mero acaso. Breve é o tempo; amplo, o espaço. Minha profissão, a poesia; meu país, onde me abraçam.

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