ANO: 25 | Nº: 6208

Airton Gusmão

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Pároco da Catedral
13/04/2019 Airton Gusmão (Opinião)

A Semana Santa


"O olhar que nós dirigimos sobre o rosto sofredor, olhar que oscila entre a repugnância e a mórbida curiosidade, é chamado a percorrer o caminho que chegue a reconhecer a humanidade, ferida ou humilhada que seja, daquele rosto. O abrir-nos à dor de Deus no mundo, na vida cotidiana, é também o despertar-nos para o humano dilacerado, obscurecido, mutilado na pessoa sofredora, no portador de deficiência, na pessoa marcada pela doença física ou psíquica; é colher a paixão de Deus na dor e no sofrimento do humano que está no homem" (O Humano Sofrer: evangelizar as palavras sobre o sofrimento. Luciano Manicardi, pag. 17-19).
Com a celebração de Ramos da Paixão do Senhor, iniciamos a grande Semana Santa. "Bendito o que vem em nome do Senhor" (Lc 19,38). Jesus não entra na cidade santa em busca de um triunfo terreno, mas para fazer seu "êxodo" pela morte de cruz e assim, como o Servo sofredor, assume livremente os sofrimentos impostos por sua missão, colocando sua confiança unicamente na fidelidade ao Pai: "Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito" (Lc 23,45).
Diante dos acontecimentos do mundo, do Brasil, da realidade onde vivemos, com vidas interrompidas por uma tragédia, uma doença, a violência; a desigualdade social, a corrupção presente em todas as instâncias da sociedade, a exclusão social, as intolerâncias de toda ordem; decisões políticas e econômicas de grupos que querem, apesar de uma propaganda bem elaborada, prejudicar os mais pobres, como por exemplo, a PEC 06/2019, da Reforma da Previdência ("as mudanças aí contidas sacrificam os mais pobres, penalizam as mulheres e os trabalhadores rurais, punem as pessoas com deficiência e geram desânimo quanto à seguridade social, sobretudo, nos desempregados e nas gerações mais jovens". Mensagem do Conselho Permanente da CNBB, 28/03/2019); a ausência de políticas públicas; muitas pessoas se perguntam: por que o sofrimento? Qual o sentido do sofrimento humano? Pode Deus sofrer? Será legítimo falar de um Deus que sofre com a humanidade? Qual o sentido do sofrimento de Jesus Cristo?
Conforme o Novo Testamento, aquele que tinha a condição divina assumiu em Jesus Cristo a condição de escravo, humilhando-Se, fazendo-Se obediente até à morte de cruz. Deus pode sentir conosco, é igual a nós em tudo, exceto no pecado (Hb 4,15). Um Deus na cruz: isso era naquele tempo um escândalo e continua a sê-lo para muitas pessoas em nosso tempo e sociedade. Uma tal mensagem é loucura aos olhos do mundo, mas constitui a sabedoria de Deus.
Contemplar a cruz, em que se revela o amor e a entrega do Filho de Deus, significa assumir a mesma atitude e solidarizar-se com aqueles que são crucificados nos dias atuais; significa denunciar as causas geradoras do ódio, da injustiça e do medo. Significa empenhar-se em evitar que seres humanos continuem a crucificar seus semelhantes. Significa assumir a atitude de Jesus, pela não violência; gerar novas relações de vida a partir da dinâmica do amor que conduz à Ressurreição.
No Tríduo Pascal, centro de gravidade e ápice do Ano Litúrgico, fazemos memória da Páscoa de Jesus em três momentos: Quinta-Feira Santa (18/04): Páscoa da Ceia; Sexta-Feira Santa (19/04): Páscoa da Paixão e Sábado Santo (20/04): Páscoa da Ressurreição.
Acolhamos o Amor do Crucificado-Ressuscitado, caminhemos cheios de esperança nesta Semana Santa, sendo nós hoje testemunhas do amor misericordioso de Deus por todos nós. Vamos participar e dar testemunho da fé, esperança e caridade cristã. Façamos a nossa parte. Sejamos alegres na esperança, fortes na tribulação, perseverantes na oração e solidários com os que sofrem. Uma feliz e abençoada Semana Santa a todos e até uma próxima oportunidade.

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