ANO: 25 | Nº: 6208
13/04/2019 Cidade

Bioma em foto

Foto: Anabela Deble / Especial JM

Fotos tiradas entre Ibaré e Lavras do Sul, em 13 de novembro de 2013
Fotos tiradas entre Ibaré e Lavras do Sul, em 13 de novembro de 2013

Um importante grupo da nossa flora nativa são as cactáceas. Encontradas de forma dispersa e fragmentada nas formações campestres do Rio Grande do Sul, são facilmente reconhecidas por ostentar formas peculiares, espinhos e flores ornamentais. Em razão dessas características, destacam-se no meio de outros protagonistas na vegetação do Bioma Pampa. Mas como entender a presença de cactos em nossa paisagem, onde o clima atual apresenta-se com padrões pluviométricos expressivos e regulares? Em um passado distante, entre 18.000 a 12.000 anos atrás, ocorreram processos oscilatórios de ordem climática na América do Sul, onde um período de aridez predominou no Rio Grande do Sul e em outras partes do Brasil. Condições subúmidas à áridas ocasionaram modificações nas formações vegetais, tanto em seu aspecto quanto em sua distribuição geográfica. Durante esse tempo, elementos da flora tiveram de adaptar-se as condições adversas impostas pelo regime climático, onde os cactos colonizaram amplamente as paisagens sul-rio-grandense. Devido novas mudanças climáticas, a aridez foi sendo substituída aos poucos por um período mais úmido, onde as florestas voltaram a predominar, avançando por quase todos espaços, exceto em pequenas áreas como afloramentos rochosos e em solos rasos ou paupérrimos em nutrientes. Esses ambientes demonstraram ser um impedimento para o avanço das formações florestais, mas perfeitamente adequados para o estabelecimento das cactáceas, devido condições favoráveis de luz, drenagem e competição ecológica. Assim, refugiaram-se nesses pequenos setores, tornando-os seus habitats naturais e que perduram em nossa paisagem até os dias atuais. No Bioma Pampa, concentra-se um expressivo número de espécies de cactáceas. Uma delas, Notocactus succineus, apresenta-se de forma globular com espinhos amarelados de cor âmbar e flores amarelas, sendo reconhecida apenas em duas pequenas áreas, nos municípios de Lavras do Sul e São Gabriel. Trata-se de uma espécie endêmica, ou seja, elemento florístico encontrado exclusivamente em pequenas áreas no Rio Grande do Sul. Apesar de porte pequeno, prestam importantes serviços ecológicos, como fornecimento de néctar e frutos para a sobrevivência de aves, insetos, pequenos mamíferos e répteis. Infelizmente atividades antrópicas e conversão de habitat revelam-se como uma grande ameaça a existência deste táxon, representado por um limitado número de indivíduos na natureza. Essa fragilidade torna a espécie como uma das prioritárias para a sua conservação em seu habitat natural, buscando evitar ao máximo a eminência de uma extinção. Seu interessante passado evolutivo nos faz compreender um pouco da historia dos seres vivos e dos fenômenos climáticos na Terra e desta forma, quando uma espécie deixa de existir, um fragmento da história da Terra é apagado e de forma irreversível. Por essas condições, devemos buscar medidas adequadas para que essa flora tão singular seja conservada e reconhecida tanto pela sua beleza quanto pela sua importância ecológica na natureza do Bioma Pampa. 
Texto escrito por Rodrigo Corrêa Pontes, geógrafo e doutorando em Geografia pelo programa de pós-graduação em Geografia da Universidade Federal de Santa Maria. Para saber mais, basta entrar em contato com o curso de Ciências Biológicas da Urcamp, pelo telefone (53) 32428244, ramal 212.


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