ANO: 25 | Nº: 6354

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
13/04/2019 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Os fundadores da Loja Amizade (parte 3)


Joaquim Ferreira Nunes, também gaúcho, com 36 anos de idade, viúvo, empregado público, grau três, fora iniciado, como os demais, na Loja Fraternidade, em 17 de junho de 1876.Teve atividades profissionais e comunitárias sóbrias, exercendo, entretanto, com afinco e apreço seus deveres fraternais, ocupando diversos cargos na Oficina, havendo sido o cobridor na gestão primeira que aqui se instalaria.
José Antônio da Silva Ramos, também coestaduano, solteiro, tinha 62 anos ao ser instalada a Loja centenária. Empregado público, fora iniciado em data ignorada, no Rio de Janeiro, em Loja do Lavradio. Foi o primeiro Mestre de Cerimônias da Loja Amizade, desempenhando, tanto na vida profana, como na maçônica, cargos de realce onde se houve com respeito e interesse.
Pedro e Rocco Cironi, irmãos de sangue que bem simbolizam o espírito fraternal que privilegia a Loja Amizade. Como Jorge Reis, Ferdinando Martino, Antônio Manduca e Joaquim Ferreira Nunes também conheceram as luzes na Loja Fraternidade, aqui fundada em 1872 pelo humanitário médico doutor Albano. Italianos, Rocco, com 48 anos e viúvo; Pedro, com 46 anos, era casado. Haviam chegado ao grau 18 na escalada da perfeição. Na ata inaugural registraram-se como"artistas", melhor seria dizer tipógrafo se artífices, eis que eram proprietários da Tipografia e Livraria Popular Irmãos Cironi, onde foram impressas páginas de relevo da história citadina e principalmente obras que constituem memória imperecível de época de gente culta e laboriosa.
Francisco Chichi, italiano, com 58 anos, casado, industrialista, tendo ingressado na maçonaria na Loja Estrela do Norte do Rio de Janeiro, em 21 de outubro de 1872. Baseado em relato de Norberto Grecco, historiador Eurico Salis conta que eram três os irmãos Chichi, Miguel, Francisco e Vicente. Aqui chegando, depois de longa e penosa viagem, obtiveram do governo o privilégio de usar as águas do arroio Bagé, e fundar um moinho movido à força hidráulica para beneficiar trigo.
Deferido o requerimento puseram mãos à obra, começando por um forte paredão que ainda hoje existe, desviando as águas e as conduzindo até roda de madeira construída porvário sartífices italianos, inclusive Pedro Bianchetti. Era o início da Indústria Bageense, que mais tarde se transformou no Moinho Bageense. Em 25 de junho de 1873, alguns indivíduos, julgado que esses imigrantes viessem apossar-se de suas terras e com o beneplácito das autoridades da época assaltaram a propriedade, assassinando Vicente Chichi, que dormia sob uma carroça. Após esses dolorosos fatos, Francisco viajou à Corte, onde foi amavelmente recebido por Dom Pedro II conseguindo do governo indenização de quarenta contos pela morte do irmão e demais danos. Permanece vários meses no Rio, ocasião em que se teria dado sua iniciação, sempre gozando da simpatia do Imperador, pois dominava a língua italiana, como toscano que era, manifestações de carinho que se deram por ocasião dos espetáculos de ópera. Voltando a Bagé, funda uma fábrica de massas e padaria, sendo considerado o primeiro grande industrialista desta cidade. Após sua morte, em 1903, seu descendente José Grecco e seu irmão, Miguel Chichi, não podendo saldar compromisso de vinte e sete contos comum Banco, venderam o Moinho para Emílio Guylain. Importante referir-se que no moinho, além das massas e pão, fabricados com a colaboração de Antônio Ferrando, fundaram um curtume com Ângelo Gallerini; e uma fábrica de vinhos e licores, com Miguel Rovira, obtendo-se azeite das oliveiras ali plantadas.
No moinho, também funcionavam banhos públicos, onde duzentos réis davam direito a toalha e sabonete. Foi, sem dúvida, era de impressionante desenvolvimento e graça. Segundo o registro do jornal O Dever, desta cidade, Miguel Chichi em outubro de 1909, após luta corporal em um baile, matou o comerciante Nestor de Bem na cidade de São Sepé, estando o processo relatado em repertórios de jurisprudência guardados no Memorial do Judiciário do RS.
Nestes 115 anos, depois de Lybio Vinhas muitas personalidades ocuparam a gestão da Loja Amizade, como o Desembargador Bernardino Senna Costa Feitosa, José Thomaz Nabuco de Gouveia, Idalino Campos da Luz, Manoel Correa da Câmara, Cyriaco Lopes Couto, Eugênio Oberst – que intimado pelo Consulado da Alemanha, de Rio Grande, para que abandonasse a maçonaria, sob pena de perder cargo que ocupava, respondera que preferia perder o posto, mas manter-se maçom-, Brenno Ferrando, Athalício Pithan, Mário Araujo, Serafim Santos Souza, Viterbo Cruz, Ambrósio Pesce, Ernesto Gonçalves, Walter Conceição, Protásio da Rosa Fagundes, Lisbelo Nunes, Mário Grisóli Dias e tantos outros que, junto aos dirigentes contemporâneos, fizeram da Loja Amizade um paradigma entre as oficinas maçônicas do Estado.

Fontes: Jorge Reis, Apontamentos Históricos e Estatísticos de Bagé, Tipografia Jornal do Povo, Bagé, 1911. História de Bagé no Século Passado, Harry Rotermund, Academia Bageense de Letras, Bagé, 1981. História de Bagé, Eurico Salis, Livraria do Globo, 1955. Edições do Correio do Sul, 30.8.1932; 6 4. 1960; e 16.10. 1960. Edição de O Dever, de 16.10.1909. Atas da Loja Amizade. Palestras do autor nesta cidade.

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