ANO: 25 | Nº: 6284

Fernando Risch

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Escritor
19/04/2019 Fernando Risch (Opinião)

Tragédia de Notre-Dame expõe a absurda desigualdade social no mundo


Quando as chamas consumiram um símbolo gótico europeu, no incêndio da Catedral de Notre-Dame, mais uma vez o mundo se abateu em choque e desesperança vendo a tragédia moderna destruir um prédio que sobreviveu a revoluções armadas e duas guerras mundiais.

Reagindo a isso, corretamente, os bilionários Bernard Arnault, François Pinault e a família Bettencourt Meyers, dona da L'Oreal, anunciaram a doação, acumulados, de 500 milhões de euros, cerca de 2,2 bilhões de reais, para a reconstrução da catedral. A ação é louvável, numa tentativa de recriar um símbolo do passado, mas expõe a brutal desigualdade social do mundo.

Quero propor uma reflexão, não introduzir uma opinião concreta a ser aceita ou rebatida. Pensemos que um dos maiores problemas brasileiros seja a da moradia. Pessoas que têm emprego, família, e não conseguem ter um lar para morar. Não um lar seu, como dono de uma casa, mas qualquer lar. O MTST, demonizado atualmente, por exemplo, é um movimento de pessoas que trabalham e não conseguem sequer ter condições de pagar aluguel.

Em Bagé, com o aporte de 86 milhões de reais pelo Minha Casa, Minha Vida, mais de mil e cem moradias foram construídas para pessoas de baixa renda poderem morar com dignidade. Fazendo uma relação, eu diria assimétrica e errônea, mas que serve ao propósito de uma reflexão, nós vimos, em um estalar de dedos, mais de dois bilhões de reais serem arrecadados por três famílias, como troco de boteco, para a reconstrução de um prédio.

Esqueçamos-nos da questão das moradias e quantas casas poderiam ser construídas com o dinheiro da reforma da catedral de Notre-Dame. Três famílias estalaram os dedos e despenderam de 500 milhões de euros, dinheiro que não lhes farão falta, para resolver um problema que, visivelmente, necessitará de um valor bem abaixo disso, pela pura comoção história que a catedral, a musa de Víctor Hugo, representa. Ainda assim estamos falando de um prédio, de pedras e paus, de frente para pessoas, muitas pessoas, bilhões de pessoas.

A simples ideia de existir tanto dinheiro acumulado, isolado, nas mãos de tão poucas pessoas é simplesmente imoral. É uma ideia que explica nosso eterno estado de crise, onde crises são sucedidas por outras crises, levando grande parte da população mundial a se sacrificar pelo privilégio de poucos. Hoje, vivemos numa crise e depois dela teremos novas.

O que se pode afirmar é que, cedo ou tarde, em dois, dez ou cinquenta anos, se a desigualdade do mundo não for corrigida com políticas que delimitem a distância entre os miseráveis e os bilionários, o que veremos é um deserto de vidas indignas, que trabalham de dia por nada e para padecerem secos no fim da noite. Rumaremos para uma nova e derradeira crise, o colapso total do sistema capitalista como vemos hoje.

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