ANO: 25 | Nº: 6306

Fernando Risch

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Escritor
26/04/2019 Fernando Risch (Opinião)

Possível soltura de Lula deveria ser um divisor de águas para o PT

Com a decisão, nesta semana, da diminuição da pena do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no STJ, para oito anos e 10 meses de prisão, no caso do triplex do Guarujá, com o que já cumpriu de pena, em quatro meses, Lula poderia progredir para o regime semiaberto por ter cumprido um sexto da pena. Isso, é claro, dependendo de como o TRF-4 julgará a apelação, no caso do sítio de Atibaia.

Supondo que a decisão se mantenha e Lula seja solto ainda em 2019, essa soltura representará um divisor de águas para o PT e sua cúpula. Não porque representará algo simbólico, vendo seu maior líder livre, mas porque a cúpula deverá tomar uma decisão importante para o futuro do partido, afetando diretamente todo âmbito da esquerda.

A primeira opção é colocar os pés no chão e lidar com a realidade. Isso significa dizer que Lula foi julgado, condenado e cumpriu sua pena, estando reabilitado com a sociedade. Essa opção significa reconhecer o processo, mas não necessariamente aceitá-lo. O PT pode dizer que foi uma condenação injusta, vinda de um processo frágil e de prova levianas, como é o discurso padrão, isso não afetará em nada, desde que assuma que o ex-presidente cumpriu a pena imposta pela justiça e agora tudo é uma página virada. Se o PT se portar assim, o partido terá um futuro no meio progressista, podendo cicatrizar suas feridas e abrir diálogo no campo do progresso para o futuro.

Mas há a segunda hipótese, a mais provável. Se, com uma possível soltura de Lula, o PT enviesar suas energias para a ideia da conspiração e perseguição, por mais que os fatos, na sua avaliação, indiquem isso, e siga numa postura fantasista frente à realidade, o partido, a maior força (e fraqueza) da esquerda brasileira, marchará seu destino não ao caminho progressista, mas a um infantilismo perigoso, que vitima líderes e legendas, ao confundir realidade e fantasia.

Na eleição, olhando já de meses passados, até se entende os mecanismos utilizados pelo PT para tentar vencer o pleito nacional, mas agora, depois que sopro de loucura eleitoral passou e a realidade atingiu a todos, longe do imaginário, não faz sentido seguir conduzindo as discussões políticas fora do âmbito da sanidade e razão.

Se o piso que o PT pisar não for feito de pedra, mas de nuvem, numa peça ficcional de realismo mágico, o partido pisará no mesmo chão do atual governo, que não se desligou da eleição, tomando cada atitude como se devesse angariar cada vez mais eleitores, brincando de pós-verdade com cortinas de fumaça, sem lidar com os problemas de forma séria.

Com o PT não reconhecendo o processo de Lula, o partido sucumbirá à fantasia, não a razão, e se arrastará para dentro do lamaçal em que se meteu nos últimos anos, não saindo dele, sem lidar com seus problemas e contradições, não reconhecendo seus erros e arrastando, como maior força da esquerda brasileira, todo o âmbito progressista consigo para um buraco infantilista, que não compreende mais o real do faz de conta.

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