ANO: 25 | Nº: 6309

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
27/04/2019 Marcelo Teixeira (Opinião)

Cobertor curto, pés de fora!

No primeiro mundo as doações às universidades são muito comuns, principalmente por parte dos egressos bem sucedidos financeiramente, como uma espécie de retribuição à formação recebida e que proporcionou ou, pelo menos, contribuiu para as suas conquistas materiais.
Por trás dessa cultura percebe-se duas coisas raras aqui no lado de baixo do equador: senso de gratidão e de coletividade. E a falta disso justifica a mesma queixa por parte de muitos gestores da educação, do Oiapoque ao Chuí, do Acre à Paraíba, nas instituições públicas e privadas, em qualquer nível de ensino: seja por parte do governo, seja por parte da população, não há uma sincera e verdadeira preocupação com a educação como meio de transformação social e econômica.
Neste contexto, fica fácil entender porque esta cultura de retribuição financeira não se desenvolve no Brasil. Todavia, nos últimos dias, esta questão das doações virou assunto nacional por culpa dos mimizentos tupiniquins que ficaram indignados com as doações dos milionários do planeta (incluindo uma brasileira) para a recuperação da Catedral de Notre-Dame em Paris. A indignação manifestada nas redes sociais seria pelo excesso de generosidade dos mais ricos com uma causa não tão prioritária, ou seja, questões sociais mais urgentes e relevantes carecem destes vultosos recursos, mas não recebem a mesma atenção dos mais afortunados.
Resumidamente, a essência das postagens simplificava a questão sugerindo que a pobreza só não acaba porque os mais ricos não querem ou, pelo menos, não se esforçam neste sentido. Se somarmos a isso a acusação – provavelmente feita pelas mesmas pessoas – de que os causadores da pobreza também são os mais ricos, poderíamos concluir que os mais ricos, de propósito, criam um problema que eles não fazem a menor questão de resolver.
Sem entrar no mérito desta complexa questão, repleta de questões ideológicas e lógicas, com bons argumentos em todos os lados, o enfoque que pretendo dar é no exagero destes posicionamentos, pois passam a impressão de que o dinheiro doado para a Notre-Dame seria suficiente para resolver a pobreza em escala mundial. Ainda que seja, efetivamente, muito dinheiro, ele não faz nem cócegas na pobreza da França, quiçá na do planeta! Mesmo sendo uma das maiores economias do mundo, o governo francês foi criticado por destinar "apenas" oito bilhões de euros ao longo de quatro anos, em um plano de combate à pobreza. Só para termos um parâmetro, as últimas notícias sobre doações para a Notre-Dame informavam que elas superavam a cifra de 600 milhões de euros, ou seja, em torno de oito por cento da "merreca" que o governo francês vai destinar para o plano quadrienal de combate à pobreza.
Isso apenas confirma que os problemas são muito maiores e mais numerosos do que as soluções possíveis, mesmo para governos sérios e bem intencionados. Foram séculos e séculos de abandono e descuido que acumulou uma quantidade invencível de problemas e, assim, hoje temos que fazer escolhas, eleger prioridades e, basicamente, essa é a incumbência dos gestores públicos, com a certeza de que o cobertor é curto e que, se tapar os ombros, descobre os pés e, se tapar os pés, descobre os ombros. Já a iniciativa privada não é muito diferente. Todos nós também elegemos prioridades e sem querer desestimular a caridade e solidariedade com os mais pobres, pode ser que algumas pessoas se sintam mais estimuladas a contribuir para solucionar um problema determinado do que para amenizar um problema indeterminado e interminável. Como diz o velho provérbio, o que é de gosto regala a vida!

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