ANO: 25 | Nº: 6279

João L. Roschildt

joaoroschildt.jornalminuano@outlook.com
Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
30/04/2019 João L. Roschildt (Opinião)

Doloroso

A conivência é uma bastarda do medo. Receosos em assumir as rédeas do destino, estabelecemos o silêncio como mecanismo que evita incômodos. Indiretamente, assentimos com a ascensão da barbárie, entorpecidos pela ideia de que o mundo está mudando. Absortos pela imagem pós-moderna de tolerância, em que pertencer a algum grupo visto como estigmatizado é algo que oferta passe livre no grande jogo das ideias, estimulamos a formação de indivíduos acríticos que devem aceitar passivamente modelos "revolucionários".

Assumindo o papel de covardes pela própria natureza e temerosos em expressar os imperativos da razão, franqueamos as cancelas para que as hordas dilacerem o âmago da alta cultura. Ao sermos omissos no papel da preservação de bons valores, resta-nos compartilhar do deleite que o carrasco tem perante suas vítimas. Espantar-se com os danos morais oriundos da negligência revela o cinismo e a hipocrisia daqueles que se esquivam dos deveres do intelecto.

Tramita no Senado Federal um Projeto de Lei da Câmara dos Deputados (PLC) que busca reconhecer o funk como uma excelsa forma de manifestação cultural. De autoria do deputado Chico Alencar (PSOL), o PLC 81/2018 é uma daquelas "pérolas" legislativas que despertam a curiosidade, afinal, qual seria a essência dessa legislação? O que move os apoiadores de um gênero musical famoso por cantarolar a glorificação de alguns ilícitos, de qualidade artística questionável e com "pancadões" que exaltam abundantemente a erotização? Ou alguém acha que a maior parte dos funks prezam por valores caros a sociedades? Ou, quiçá, produzem melodias refinadas e alcançam a fama sem falar, necessariamente, em bumbum? Nada contra belos e sensuais bumbuns, mas a ênfase repetida na vulgarização pode exterminar com a beleza.

Pois bem, nos escassos artigos que englobam o estupendo PLC, há a definição de que o funk deve ser alvo de cuidado e proteção do poder público; seus artistas e festas devem ter seus direitos respeitados; e cabe ao poder público fomentar regularmente tal expressão artística (uma verba estatal é necessária...), assegurando as condições para a democratização dessas músicas (cresçam e se multipliquem). Mas o que mais chamou atenção diz respeito ao art. 4º, parágrafo único: "Qualquer tipo de discriminação, preconceito ou desrespeito, de natureza social, racial, cultural ou administrativa, contra o movimento funk ou seus integrantes submeter-se-á às penas da lei". Ora, em uma era de ofendidos, afetados e vitimizados, será que a apresentação de alguma crítica à peculiar espécie sonora, que difunde batidas e rimas pueris, não abriria margem para enquadrar tal análise em um flagrante desrespeito a esta elevada "cultura"? Seria ilícito um parecer depreciativo? Esse texto, que o leitor estima (ou não), poderia estar submetido ao império legal arbitrário elaborado por Chico Alencar?

No auspicioso funk "Aceita que dói menos", Mc Fany e Mc Nandinho, de forma bastante explícita, escracham a realidade musical merecedora de proteção estatal: "Eu armei toda a cilada, tu caiu na armadilha; Se entregou, ficou de quatro; Só faltou a chup******; Eu passei toda a visão, só pra tu já ficar sabendo; Agora é tarde, aceita que dói menos". Óbvio! É uma cilada cultural. A armadilha foi bem armada. E já é tarde. Mas nem por isso, vai doer menos.

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