ANO: 25 | Nº: 6312

Fernando Risch

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Escritor
03/05/2019 Fernando Risch (Opinião)

Ele sempre teve medo de morrer

Ele sempre teve medo de morrer, como é provável que todos tenham. Tinha medo de morrer em um acidente de carro. Um segundo, uma desatenção e ele se tornaria uma estatística, um fragmento de recorte de jornal do dia seguinte, nos autos da história que ninguém lembra. Tinha medo de falar que tinha medo, porque sentia que isso poderia atrair a irresistível coincidência do carma, que faria pessoas se persignarem de forma cretina, dizendo que ele havia profetizado, que esse era o desejo de Deus, que era a sua hora, quer era para ser.

Sentia muita ansiedade por consequência do medo; e por consequência de pensar nos desdobramentos consequenciais de seus pensamentos. Uma vez escapou de um acidente, na saída de Santa Maria. O tráfego estava lento na BR 290. Seu chefe mandou ele ir mais rápido e não perder as oportunidades de ultrapassar. Ele ultrapassou e por dois segundos não colidiu com um caminhão. Seu chefe o chamou de irresponsável, que era pra ter mais cuidado e não ter pressa. Aquela cena passa e repassa na sua cabeça todas as noites. Poderia ter sido ali, estatística num jornal de outra cidade.

Teve outra vez, na BR 153. Uma ultrapassagem desnecessária, após uma hora atrás de um caminhão que não saía do lugar. No fim, uma curva e um carro. Segundos. Pediu desculpas a si mesmo e teve vontade de chorar. Só de pensar, sente um espinho cravar-lhe a boca do estômago, num sinal que só pode ser de ansiedade a lhe pressionar.

Como essa gente consegue dirigir nas estradas por aí, é o que se pergunta. Elas morrem, é bem certo, mas muitos vivem o suficiente para morrer na velhice e se gabar de terem tanta estrada na conta ao ponto de poder fazer três voltas do mundo só indo e vindo de Porto Alegre. Ele gostaria de ter essa sorte, mas não precisar dar chance para ela. Seguiu com medo e ansioso. E ao pensar que escrever sobre isso o medo e a ânsia passariam, apenas agravou o problema ao pensar nas consequências jocosas do destino.

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