ANO: 25 | Nº: 6331

João L. Roschildt

joaoroschildt.jornalminuano@outlook.com
Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
09/05/2019 João L. Roschildt (Opinião)

Doloroso II

Na pior das realidades intelectuais contemporâneas, oscila-se entre a total boçalidade e a desfaçatez cognitiva. Sem arrogância, esse fato tornou-se comum e tolerável. Negar ou esconder o óbvio, por ignorância ou em virtude de razões aparentemente nebulosas, transformou-se em uma nova modalidade de ocupação do espaço público. No reino do relativismo, em nome do respeito às diferenças, há a supressão da régua moral. No império dos "revolucionários", em nome da tolerância, há a exclusão das discordâncias. E, no universo dos "tolerantes", em nome da diversidade, há a eliminação da razoabilidade.

Ainda em trâmite no Senado, o Projeto de Lei da Câmara (PLC) nº 81, de autoria do deputado Chico Alencar (PSOL), busca outorgar ao funk, em razão de sua importância no processo de formação da cultura nacional, uma digna proteção estatal. Já aprovado pela Câmara, o projeto foi alvo de um relatório no final do ano de 2018. Nele, o senador Humberto Costa (PT) não poupou esforços para justificar seu parecer favorável. Sim, para ele, e para boa parte daqueles que militam no progressismo, o funk, notadamente de variante carioca, é um bem cultural de grande relevância.

Uma das razões encontradas no relatório é um argumento de cunho populista-democrático: já que vários jovens encaram o funk como uma atividade "cultural" e de lazer, nada mais justo do que transformá-lo em um grandioso bem imaterial nacional. Nas palavras do senador, o funk "está massivamente presente nas rádios, na televisão e na internet. O maior canal brasileiro do YouTube, e terceiro maior do mundo, por exemplo, possui conteúdo sobre a cultura funk e já reúne mais de 46 milhões de seguidores. Grandes ídolos lotam shows ao redor do Brasil e arrebatam fãs nas redes sociais". Ora, nessa dinâmica, toda prática que envolva massas, que reúna um número considerável de adeptos ou que possua grande receptividade no ambiente virtual é merecedora de amparo legal?

No mesmo documento, Humberto Costa diz que o funk é visto de maneira preconceituosa pela sociedade, sendo comum que a mídia brasileira o relacione "ao tráfico, à promiscuidade, à violência e à criminalidade", o que seria um reforço na desvalorização de alguns segmentos sociais, como negros e pobres. A despeito da péssima piada e do cinismo embutido, ninguém nunca viu funkeiros com armas e fazendo gestos que lembram sinais de criminalidade? A música "Mulher de negócios", de MC Carol, é uma ode a atividades laborais lícitas? Quando ela canta "tu sabe que eu sou vida louca; prazer, Carol bandida; [...] eu negocio com os sócios; se tiver que matar; vou defender o que é nosso", alguém acha que são metáforas? Ou seria preciso transcrever as letras da ampla maioria dos funks para demonstrar como a promiscuidade e o aviltamento do sexo é algo muito defendido por este gênero? Quem tiver coragem e for muito curioso, ouça as músicas do grupo "Gaiola das Popozudas", que revelou a "filósofa" Valesca Popozuda...

Aos que defendem a ideia de que esses exemplos são exceções e não constituem a essência funkeira, assumam a boçalidade ou a desfaçatez. É simples e honesto. Certa feita, a escritora portuguesa Agustina Bessa-Luís declarou que "a cultura é o que identifica um povo com a sua finalidade". Em suma, não há bom propósito com baixa cultura. Aceitem que dói menos.

Deixe seu comentário abaixo

Mais notícias da edição

Outras edições

Carregando...