ANO: 25 | Nº: 6335

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
11/05/2019 Marcelo Teixeira (Opinião)

Os autointitulados

Nestes tempos em que se especula sobre as profissões do futuro que ainda não existem no presente, e sobre profissões do presente que, provavelmente, não tem futuro, surge com muita força e, principalmente, com muita criatividade, uma série de profissões e ocupações nunca antes vista na história do país, graças à inexistência de regulamentação, órgão de classe ou formação acadêmica. Na maioria resultam da atitude de alguém diante de uma oportunidade ou necessidade. Assim, pode até ser algo casual, mas que se transforma numa nova atividade ou profissão a partir do momento que desperta interesse do mercado e ganha notoriedade.
E é exatamente essa notoriedade que revela toda a criatividade dos novos profissionais que se autointitulam, por exemplo, coach, blogueiro, ideólogo, vlogger, youtuber, personalidade da mídia, motorista de aplicativo, terapeuta holístico, personal organizer, influenciador digital (digital influencer) e até presidente da Venezuela. Muitos sequer sabem o que é isso que eles dizem ser e outros tantos dificilmente conseguem ter certeza se eles são realmente aquilo que dizem ser. Tudo porque não há formação obrigatória nem regulamentação legal, não impedindo que alguém se autointitule ou se autodeclare aquilo que não é ou que não tem a menor vocação para ser.
Como disse Baden Powell em seu “Canto de Ossanha”: “O homem que diz sou, não é, porque quem é mesmo é ‘não sou’.”, ou seja, diante da ausência de formalidades burocráticas, para que efetivamente estes novos profissionais sejam considerados como tal, é absolutamente indispensável o reconhecimento alheio de sua reputação e competência naquela atividade que ostenta.
Mesmo nas atividades e profissões regulamentadas e tradicionais, essa falta de sintonia entre o título ostentado e a efetiva capacidade é coisa muito antiga. A formação e a qualificação nem sempre se confirmam na prática. De certa forma essa tendência moderna das pessoas se autointitularem contribui para reforçar aquela velha máxima de que quem não tem competência não se estabelece.
Se por um lado todo esse dinamismo no mundo das profissões e ocupações não é necessariamente negativo e resulta, também, deste momento de crise econômica, por outro abre a porta para espertalhões se aproveitarem dos incautos para oferecer e cobrar por serviços que efetivamente não estão aptos a ofertar. Resta o consolo de que com o andar da carruagem as abóboras vão se ajeitar e provavelmente muitas dessas profissões não irão resistir e outras vão se firmar e qualificar. Nesse aspecto, o mercado é soberano e impõe suas regras mesmo sobre este universo desregulamentado.

-x-x-x-
Graças à colaboração do amigo Décio Lahorgue, corrijo uma informação contida no artigo da semana passada sobre o impeachment dos ministros do STF onde afirmei equivocadamente que tirando o Ministro Barata Ribeiro (“reprovado” na sabatina do Senado), todos os demais teriam saído porque quiseram, se aposentaram ou morreram. Na verdade, durante a ditadura militar, três ministros do STF foram cassados e outros dois pediram para sair por não aceitar essa intervenção militar na suprema corte.

Deixe seu comentário abaixo

Mais notícias da edição

Outras edições

Carregando...