ANO: 25 | Nº: 6282

Luiz Fernando Mainardi

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Deputado Estadual
15/05/2019 Luiz Fernando Mainardi (Opinião)

O paradoxo salarial do governo Leite

No governo de Leite, o presidente do Banrisul pode ganhar mais de 120 vezes o salário dos trabalhadores que recebem o piso regional.

Desde a sessão de ontem (14), estão em pauta dois projetos do governo Leite que revelam um pouco da visão deste governo sobre a realidade social gaúcha e brasileira. Falo do projeto de reajuste do Piso Regional, que é o salário mínimo dos gaúchos, e, ao mesmo tempo, a indicação do novo presidente e da nova diretoria do Banrisul. O fato desses dois projetos entrarem em pauta ao mesmo tempo é uma daquelas coincidências relevantes, que expõem contradições e deixam mais clara a natureza política e social de uma gestão, neste caso, a do governador Eduardo Leite. 

Vejam: o índice apresentado pelo governador para a correção do Piso Regional é de 3,4%, menor do que o usado para reajustar o salário mínimo nacional, que foi de 4,61% e, pasmem, menor do que a própria inflação do período, que registrou 3,43 (INPV) em 2018. Sobre esse tema, que, evidentemente, revela o compromisso dos governos com os trabalhadores, principalmente os de menor renda, que recebem o piso e/ou têm seus salários relacionados a esta referência, é nítido a superioridade dos governos do PT em relação a todos os outros, desde que o piso regional foi instituído, em 2002, pelo governador Olívio Dutra.

Para se ter uma ideia, quando foi criado, o piso regional representava 1,3 salários mínimos. Com a sucessão de Olívio por Rigotto e, depois, por Yeda, o valor do piso regional decresceu para apenas 1,07 do salário mínimo nacional. Tarso recuperou-o, deixando como legado um piso regional que chegou a 1,28 salário mínimo nacional. Sartori o manteve em uma faixa de 1,25 e, agora, Leite reinicia o ciclo de baixa.

Em relação à inflação (INPC), foi no governo Tarso Genro que o piso regional alcançou sua maior valorização, crescendo 39% a mais do que a inflação. No governo Sartori, perdeu 0,6% em relação à inflação e, agora, no primeiro reajuste do governo Leite, já sai perdendo 0,03% em relação à inflação. É fácil compreender qual caminho este governo quer trilhar em relação ao salário que incide sobre cerca de 2 milhões de trabalhadores gaúchos. Apenas isso já seria um indicador negativo para a política governamental de quem diz representar a todos os gaúchos. Mas tem mais.

Ao mesmo tempo em que mantém um arrocho salarial para a base da pirâmide social, o governador concilia com a decisão de elevar a composição de remuneração dos dirigentes do Banrisul. Talvez você não saiba, mas hoje o salário do presidente do banco público gaúcho está na faixa de R$ 52 mil e dos diretores, em torno de R$ 42 mil. Agora, o governo Leite quer aumentar o salário do presidente do Banrisul para R$ 123 mil e dos diretores para R$ 90 mil.

Você acha isso admissível? Tem partidos novos que acham. Acreditam que o mercado deve determinar até essas coisas. Segundo raciocínio deles, o estado não deveria se meter nisso e como existem muitos trabalhadores disponíveis e poucos candidatos a presidente do Banrisul, é normal que aqueles recebam menos do que este. Inclusive muito menos, como se vê na realidade. Esta visão revela um desprezo tão grande pelas pessoas que não mereceria audiência, mas, infelizmente, tem.

É evidente que o Estado precisa regular coisas como essa. Como banco público, o Banrisul precisa dar exemplos, principalmente quando enfrentamos uma crise tão reiterada pelo governo, que parcela salários e atende aos apelos empresariais pela diminuição real do valor do piso regional. Não é admissível que o indicado a presidente do Banrisul – cuja especialidade, aliás, é montar projetos de privatização (mas isso é outro assunto que trataremos em outro momento) – possa receber 88 vezes o salário de um professor estadual e mais de 120 vezes o salário de um trabalhador gaúcho que recebe o piso regional.

Se trata de uma injustiça, mas, também, de um escândalo. Não importa que o Banrisul tenha aumentado o seu lucro e que os banqueiros dos bancos privados tenham remuneração altíssimas. Pagar ao presidente de um banco público R$ 1,4 milhão anuais, fora as participações nos lucros, é algo realmente difícil de sustentar para um estado em crise.

 

Líder da bancada do PT na AL

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