ANO: 25 | Nº: 6254

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
18/05/2019 Marcelo Teixeira (Opinião)

As paredes têm ouvidos e os ouvidos têm paredes

Em 2004, escrevi um artigo comentando o desempenho dos atletas brasileiros na Olimpíada de Atenas e, no texto, citei a célebre frase de Che Guevara sobre a necessidade de endurecer sem perder a ternura. Na época, um leitor me chamou de comunista por causa disso, ou seja, mesmo o texto não tendo nada a ver com comunismo, a mera citação do parceiro de Fidel foi suficiente para a minha rotulagem. Se eu tivesse citado Olavo de Carvalho provavelmente alguém teria me chamado de fascista.
Quando escrevi um artigo intitulado "Loiras burras", me chamaram de machista e preconceituoso, ignorando o esclarecimento que fiz no início do texto no sentido de que a expressão descrevia pessoas de ambos os sexos e com diferentes cores de cabelo. Mas para que ler o primeiro parágrafo se o título já é suficiente para eu sentar o pau no autor?
Sobre Olavo de Carvalho, inclusive, recentemente o meu colega João L. Roschildt escreveu um artigo dizendo que boa parte de seus críticos nunca leu uma linha de seus textos. Na hora pensei o mesmo sobre os críticos de Marx que, como eu, não leram uma linha sequer de "O Capital" (Das Kapital, 1867).
Da mesma forma, ateus criticam a Bíblia Sagrada sem nunca ter lido um versículo sequer ou, quando leem, proposital e desonestamente, pinçam trechos do Velho Testamento, específico de um contexto histórico de mais de dois mil anos atrás, para interpretar literalmente sugerindo sua aplicação contemporânea. E tantos outros exemplos atuais e antigos de que a má vontade e a disposição de quem critica, independe da qualidade das razões e fundamentos de quem é criticado.
É uma antipatia prévia, superficial e normalmente oriunda de opinião alheia, a que aderimos por respeito, consideração ou mera simpatia por seu autor. Não é necessariamente uma coisa boa, mas é natural e se repete, por exemplo, até com o paladar, ou seja, conheço muita gente que diz não gostar de alguma comida ou bebida, sem nunca ter experimentado.
É quase inacreditável que em plena Era do Conhecimento, com a livre circulação de tanta informação e conhecimento, ainda exista um significativo número de pessoas que preferem se "fechar em copas", se apegar a conceitos e preconceitos, sem dar a menor chance para outras experiências, opiniões, valores e fundamentos. O poeta Ruy Proença sintetizou esta transformação social dizendo: "Antigamente, diziam: cuidado, as paredes têm ouvidos! Então falávamos baixo, nos policiávamos. Hoje, as coisas mudaram: os ouvidos têm paredes! De nada adianta gritar." Até porque, como dizia o pai de Desmond Tutu, "não levante sua voz, melhore seus argumentos."
Na verdade, hoje, vivemos no pior dos mundos: as paredes têm ouvidos e os ouvidos têm paredes. Sempre tem alguém disposto a usar contra nós tudo aquilo que dizemos e quase ninguém está disposto a aprender com aquilo que tentam lhe ensinar. É muito difícil aceitar que alguém não veja em si mesmo aquilo que quase todo mundo vê e tenta corrigir aconselhando. Isso tudo reforça a ideia de que a origem e a solução de boa parte de nossos problemas reais e tormentas mentais está em nós mesmos. Vai depender de nossa disposição em sair da caixinha e aceitar ouvir ou experimentar coisas e pontos de vista diferentes que, eventualmente, podem até mudar nossa vida para melhor.

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