ANO: 25 | Nº: 6386

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
24/05/2019 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

De Empíreo és Soberana

À noite vou acender uma vela no canto da janela.
O lugar é alto, os vizinhos vão censurar, pode pegar fogo. Uma vela órfã: não é costume. (*)
Sonho que longe seja vista pela barca que carpe areia, ou um navio de passagem; o morador da ilha; quem sabe um avião!
Os pioneiros do correio aéreo contavam a solidão do espaço, a tensão das horas; de repente uma luzinha perdida, lá embaixo no negrume que mete medo, uma alma piscava, virgem formosa.
À noite, vou acender uma vela.
Quando guri, ansioso empurrava o frio com a veneziana, espreitava os lados da estação. Depois, lá para baixo, era um clarão único, resplendor de cores, incêndio de brilhos, trevas demolidas pelos fachos que irmanavam a corrente de respeito e lume, mãe dadivosa.
A gente tinha só duas sacadas, era feriado; comprava celofane, a cola de farinha, pegajosa, tinha que estar no ponto, celofane azul e rosa; e pincelava o copo de flor, a vela aprisionada na roda de papelão; e invejava as famílias que tinham muitas beiradas, enchiam de tochas, exuberantes, orgulhosas; e nós com duas sacadas, o arranjo azul. E rosa.
Naquela semana, tinha uma procissão noturna, mil tormentos entre o furor; começava na capelinha, e se descia, um vento afiado, ave, Pai Nosso, o padre sufocava as contas do rosário, Salve Rainha, senhores respeitáveis carregavam o andor: a mãe apertava minha mão, astro de amor.
Logo, o colégio, o cortejo desaguava na igreja; e quando as portas se abriam na balbúrdia de espáduas e olhos, explodia o coro, teus filhos salva, a nave se enchia em atropelo, os bancos já não continham; o incenso acariciava narinas, meninos sacudiam a sobrepeliz, o sacrário, as rezas; mirava a mãe e mirava o altar; mirava a mãe e mirava a estátua; mirava a mãe e baralhava as faces, santa e mãe, santa mãe.
À noite, vou acender.
E quando se dobrava a esquina, de longe se via o fulgor da vela (azul ou rosa?).
Apressava a marcha, quem sabe um chocolate quente, bradamos todos numa só voz; amanhã já tem aula, a tarefa de matemática inconclusa; o rádio que cochilava no canto da sala, o armário das louças enfeitado com papel de jornal, o pai não abdicava do rebenque pendurado no filtro, rogai por nós.
Subo nos antigos passos, e pergunto qual vela avisto (azul ou rosa?), de nosso exílio pelo caminho, envolve a todos no carinho, chama ainda haverá?
À noite.

(*) Não é costume em Porto Alegre, onde reside o autor.

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