ANO: 25 | Nº: 6334

Fernando Risch

fegrisch@gmail.com
Escritor
24/05/2019 Fernando Risch (Opinião)

O Pássaro Laranja

Era uma vez um pássaro solitário, jovem e de bico largo. Em andanças interesseiras, abriu o bico e começou a fazer barulho. Fazia parte da família dos Pachyramphus polychopterus, apesar de todos desta espécie apresentarem características diferentes. Eram calados e tinham o bico pequeno. Para todas as espécies que o pássaro berrava contra, sua família calava e fazia amém.

Alçou voos mais altos quando pôde. Foi visto sentado ao ombro de um gárgula de pedra, no pico mais alto de Pindorama, que alguns juram ser a imagem de um vampiro, tudo isso filma, ao vivo, em plena televisão, para que ele nem ninguém pudesse desmentir depois. Quem assistiu, se engasgou com a cena, ao ponto de pedir um copo d'água para acalmar a garganta. E há quem jure que, na verdade, fora a estátua que tossira em vozes demoníacas pelo aparelho de TV.

O pássaro mudou, como achou que deveria mudar. Certo dia, se olhou no espelho e decidiu que trocaria de espécie, iria para uma nova, ainda não catalogada. O que os biólogos não conseguiram explicar, os sociólogos explicaram, no momento em que, como mágica, as penas do pássaro se tornaram alaranjadas.

A partir daí, os voos só se elevaram, mais e mais, e tudo que o pássaro laranja havia feito anteriormente, parecia esquecido. Ele agora comandava uma nova espécie, a espécie de pássaros que não gosta de pássaros, que não se diz pássaro e que faz exatamente o que todo pássaro sempre fez: agiu como um pássaro.

E ele voou. Atravessou rios artificiais, embicou voos em lagos com nome de rios e sobrevoou arroios, que em épocas corriqueiras de estiagem secam. Abriu o bico, para estômagos estafados, e fez o que melhor sabe fazer: fingiu ser algo diferente em troca de aplausos.

Deixe seu comentário abaixo

Mais notícias da edição

Outras edições

Carregando...