ANO: 25 | Nº: 6282

Revivendo os Quatro - série especial sobre o Grupo de Bagé

Uma produção dos estudantes do curso de jornalismo da Urcamp
29/05/2019 Revivendo os Quatro - série especial sobre o Grupo de Bagé (Opinião)

Grupo de Bagé é retratado em filme

Foto: Acervo do Museu da Gravura

Por Livia Monteiro, Mariana Muza e Caroline Cursino

O Grupo de Bagé é conhecido como um dos principais movimentos artísticos do País. Surgido em meados de 40, ganha destaque nas décadas seguintes. Foi criado por quatro jovens em busca de expor e autenticar seus pensamentos sobre o mundo e a própria vida.
O longa-metragem Grupo de Bagé, dirigido por Zeca Brito, em 2018, conta em detalhes sobre a história de Carlos Scliar, Glauco Rodrigues, Glênio Bianchetti e Danúbio Gonçalves. Com duração de uma hora e 15 minutos, destaca, primordialmente, a origem do movimento e a recriação nos pampas do Sul do Brasil para, posteriormente, ser devolvida ao mundo em forma não só de apreciação à arte, mas também como posicionamento político e social.
Bagé, cidade do interior do Rio Grande do Sul, de ruas largas e com a cultura marcada pela vida no campo, faz da imagem do gaúcho retrato em telas e cepos de madeiras para ganhar seu lugar na história brasileira, através das obras do Grupo. De imediato, o documentário traz ao espectador a importância da cidade aos ideais sobre a sociedade e o impacto refletido nas obras do quarteto, ao longo de suas vidas.
Carlos Scliar pode ser caracterizado como figura percursora do grupo, que dá movimento aos outros três jovens. Viveu longos anos sendo vizinho da guerra, assistindo-a em seu pátio de casa enquanto residia na Europa, trouxe, portanto, uma grande bagagem sobre o conceito de política. Acreditava na utopia de uma vida melhor. Com espírito cívico subentendido em sua arte, Scliar marca a tragédia social, o famoso Realismo. Com obras expostas no Taller de Gráfica Popular, na cidade do México, usava, principalmente, a arte para promover as causas sociais revolucionárias. Assim, traz consigo as gravuras, permitindo que o conceito “da arte ser de todos”, fosse realmente de todos. Dessa maneira, ao voltar a suas raízes, a cidade de Bagé, influenciou os jovens artistas que nem artistas sabiam que eram, pois, segundo Glauco Rodrigues, pintavam por intuição sem nunca terem visto um quadro. À vista disso, o longa segue uma linha tênue, narrando a importância da sua personalidade.
Glauco Rodrigues é o segundo artista narrado no longa. De caráter mais tranquilo, era apaixonado pelo Rio de Janeiro. Nacionalista, utilizava muito a Pop Arte em suas pinturas. No entanto, sua essência permaneceu perpetuada nas telas e gravuras, retratadas pelo realismo brasileiro do samba, da bossa nova, da vida do gaúcho no campo, de um Brasil aculturado e da miséria que aqui existia. Com cores vivas, abre espaço para um novo modo de se ver o popular. Devoto de São Sebastião, padroeiro de Bagé e dos cariocas, dizia que o Santo demostrava as dores de sua terra.
Glênio Bianchetti, por sua vez, retratava os hábitos e costumes do Rio Grande do Sul através da xilogravura. Preso em 1964, na ditadura militar, ficou 20 anos sem emprego. Somente após esse período de censura é que pôde viver de sua arte. Ao mudar-se para Brasília, ganhou destaque com a tapeçaria, com cores marcantes representando o seu novo estilo. Hoje, tem grande destaque no Palácio do Planalto, na capital federal.
Danúbio Gonçalves, falecido há pouco tempo, vem para fechar a sequência. Mostrou seu jeito próprio de enxergar o mundo, era artista e somente isso bastou para dar vida a tudo que via. Assim como Scliar, estudou na Europa. De família rica, enfrentou críticas sobre o caminho escolhido, mas retratou com fervor a carne sendo salgada em sua série Charqueadas. Ficou conhecido também na gravura pela série Mineiros do Butiá. Era múltiplo, pintava e transformava em gravura tudo aquilo que acreditava ser cultura.
Homens artistas deixam inspirações para quem fica. O longa-metragem de Zeca Brito retrata de forma leal seus espíritos talentosos, deixando a quem assiste a reflexão sobre a importância das suas origens, pois tudo o que há hoje vem por consequência do ontem. O Grupo de Bagé construiu, ao longo dos anos, um patrimônio histórico, social e cultural único, conhecido, atualmente, como o Museu da Gravura Brasileira, que permite a todos aqueles que são grandiosos, como os simples meninos da Rainha da Fronteira, tenham o seu espaço, possam perpetuar a sua essência através da arte. Afinal, a arte retrata a vida, e como Danúbio afirma: “Nada que é bom desaparece”.


*Os alunos do jornalismo assistiram ao filme Grupo de Bagé que está disponibilizado ao público no Museu da Gravura Brasileira Fat/Urcamp.

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