ANO: 25 | Nº: 6334

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
30/05/2019 João L. Roschildt (Opinião)

Que feio!

A feiura é feia. Simples assim. Desde a mais tenra idade, o processo civilizatório ensinou que, na consideração sobre aquilo que é feio, habita a degradação, a inadequação e a incorreção. Por exemplo, crianças e animais domésticos, quando cometem erros, são alvos contínuos de uma reprimenda clássica: “Que feio!”. Algo inerente à perspectiva de que a atitude não é boa e deve ser evitada.

Sem esquecer as imperfeições típicas da loteria natural, a busca por aquilo que é belo move os seres humanos. Todavia, estimulados pelo relativismo moral e espancados por ideologias coletivistas que buscam a destruição da tradição, desenvolveu-se, na contemporaneidade, a ideia de que é feio dizer que algo é feio. Paradoxalmente, se tudo é belo, perde-se a noção de beleza.

De maneira curiosa, existem estudos, bastante sólidos, desde o início dos anos 2000, indicando que os bebês já nascem com julgamentos em torno da estética: gastam mais tempo olhando para rostos belos do que para rostos considerados pouco atraentes. Os estudiosos dizem que, mesmo que ainda sem influências externas, os recém-nascidos teriam uma espécie de escolha direcionada para a beleza, guiada pela perspectiva da simetria. Algo que é reforçado por inúmeros estudos que envolvem o reino animal: machos que apresentam padrões simétricos ofertam maiores garantias de saúde reprodutiva para as fêmeas.

Reparem que o desencontro ideológico das diversas estirpes coletivistas-revolucionárias com o mundo que as cerca está calcado na negação da natureza humana-animal. Há sempre uma aversão à ordem, à proporção, ao que possui clareza e àquilo que garantiu a sobrevivência das espécies: a beleza transmitida por gerações. Da biologia à arte; da biologia à política; da biologia ao direito: nega-se o óbvio em nome de uma causa. Tudo se transforma em uma área humana passível de desordem, pois é ela que garantirá a construção do homem revolucionário. Lembrando que é a desordem uma representante moral da feiura.

Pugnar pela definição do que é belo trará a opressão daqueles que não se enquadram nos padrões estéticos. Minorias invejosas pela ausência de beleza interior e exterior farão da miséria de suas vidas a matriz para derribar a graciosidade e a busca pela perfeição.

No reino da perdulária desordem mental provocada por determinadas ideologias políticas, há uma valorização daquilo que rompe paradigmas, desestrutura valores e faz da degradação o novo modus vivendi, que guiará a sociedade. Nesse processo, gostos, preferências e desejos, desde que firmemente alinhados com estas visões de mundo, ficam sobrepostos a valores caros e universalmente reconhecidos. Na música, perde-se a harmonia. Na arte, perde-se o encanto. No direito, perde-se a ordem. Na política, perde-se a razão. Na beleza, perde-se a perfeição.

Vítimas da ideia de que qualquer coisa serve, a sociedade vê-se submersa no assombro da rejeição da formosura e assiste à perturbadora ascensão do ultrajante. Concomitante a esse acinte intelectual, a existência humana vê-se carente de sentido que transcenda à mera existência carnal.

Se o “prazer estético deve ser um prazer inteligente”, como disse Ortega y Gasset, como compreender músicas que rebaixam a condição humana, “performances” que vulgarizam o sexo, ou tipos de arte que sacralizam o profano? Que época feia!

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