ANO: 25 | Nº: 6335

Fernando Risch

fegrisch@gmail.com
Escritor
31/05/2019 Fernando Risch (Opinião)

Vivemos o pior momento para a arte e o melhor momento para fazer arte

No dia 4 de abril de 2014, exatamente às dezenove horas e trinta e três minutos, eu, minha esposa – na época namorada – e minha mãe saímos para comemorar. Nós, geralmente, saímos em dias aleatórios, normalmente nos finais de semana, e inventamos algo a se comemorar. Estava quente aquele dia. Fomos até um bar. Eu usava bermudas avermelhadas e um amigo, músico, tocou. Naquele dia, comemoraríamos a finalização do meu primeiro livro.

Comentei a elas no carro que, um minuto antes, eu havia salvado o arquivo de Word que continha o que seria o ponto final de "O homem e seus demônios". Naquele mesmo dia, na parte da tarde, eu havia comprado um celular, provavelmente o pior telefone já confeccionado na história dos telefones. Eu o vendi no dia seguinte, por menos preço do que comprei, mas até isso acontecer, eu quase o quebrei de raiva nas primeiras cinco horas de uso.

Algo aconteceu naquele dia e não posso atribuir ao patético aparelho. Achei meu amigo fora do tom e não gostei da qualidade do som. Odiei a comida, apesar de estar muito boa e tê-la comido toda. Odiei a cerveja, apesar de ter sido uma simpática marca que, por sua vez, estava estupidamente gelada. Mas eu estava irritado e nada poderia me agradar. Ainda tinha aquele celular.

São cinco anos desde então e neste período muita coisa aconteceu e eu aprendi bastante. Uma das coisas que aprendi é tentar me irritar menos e creio que consiga. Então minha irritação se tornou uma espécie de depressão de tons blasé. E foi assim que eu percebi o que aconteceu.

Muito recentemente, concluí meu quarto livro, "O Corpo de Luana", e senti aquela sensação de novo, apenas reagi diferente. Fiquei triste e desesperançoso mais do que o normal. Em 2014, eu estava ansiado, engasgado. Eu queria ver meu livro impresso, na rua, com as pessoas lendo. Foi muito esforço e trabalho para eu parar numa sexta-feira à noite em um bar e ter que responder a pergunta "e agora?". Aquele próximo passo, o mais difícil, eu não sabia dar, e isso frustra.

No meu segundo e terceiro livro, as coisas foram diferentes. Eu já tinha experiência em como proceder e eu vendia livros (isso é importante). As coisas mudaram, o Brasil mudou. As vendas caíram, a cultura virou diabo, mas conheci muitos escritores, alguns deles gigantes e realmente experientes no mercado editorial. Resolvi tentar um passo longo.

O passo deu certo, com um e-mail vindo de Nova York, em que eu dava bom dia e a pessoa me respondia com um boa noite. Isso foi em janeiro do ano passado. Promessas foram feitas e expectativas foram criadas. E o prazo prometido que era curto se alongou, de dois meses para mais de um ano. Quando o contato foi refeito, com os devidos perdões, para que compreendesse que a literatura caminha dentro do seu próprio tempo, a resposta havia mudado e a frase "nesta fase terrível" carimbava a justificativa do não.

Compreendi, como não compreendem os mimados. A pergunta "e agora?" mais uma vez me agrediu com sentimentos que sugam as energéticas almas à total desesperança. E que tempo propício para beber de pessimismo. De novo, eu não tenho escolha a não ser me levantar e dar um passo à frente nesta fase terrível que diz não a tudo.

Vivemos o pior momento para a arte e o melhor momento para fazer arte. Seguiremos.

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