ANO: 25 | Nº: 6382

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
01/06/2019 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

A mulher de César

Escutava palestra na livraria quando, distraído, os olhos se detêm na estante habitada por livros de segunda mão. Um deles sobre Júlio César, escrito por Plutarco. Lembrei que já tinha outro, mas de Suetônio, abrangendo outros 11 imperadores romanos.
Reler essas obras leva à adolescência, tempos de ginásio, aos egípcios, gregos e às conquistas dos afilhados da Loba, que como Alexandre estenderam limites aos confins do mundo, deixando perenes suas lembranças e modos; as façanhas e os heróis.
Suetônio adota uma peculiaridade. Omite a infância e juventude de César, como habitualmente fazem os biógrafos, e arranca a descrição a partir de uma intriga: Sila, o senhor de Roma, não conseguira, com ameaças e promessas, dissuadir César de casar com Cornélia, filha de Cinila, de quem confiscara o dote. Motivo da fofoca: César era parente de Marius, marido da tia dele, inimigo de Sila, este último costumeiro em matar seus adversários, o que pretendeu fazer também com o jovem Júlio. Que, sabendo, se exila entre os sabinos. Todavia, doente, resolve retornar, sendo preso, mas suborna o comandante, ganha a praia e se evade para Betânia, junto ao rei Nicomede, com quem permanece pouco tempo. Mais adiante direi que um dos Nicomedes seria tido pelas "más línguas" como um dos amantes do militar. É aprisionado por piratas, ficando detido por mais de mês, paga o resgate aos corsários sicilianos, organiza sua tropa e aí começa a extraordinária saga desse grande líder.
Os capítulos sobre a caminhada de César pelo mundo e Roma constituem referência obrigatória para qualquer leitor e se inscrevem entre os melhores momentos históricos, mas prefiro ficar, por ora, nas questões de alcova e intimidades do personagem.
Minguando o poder de Sila os amigos de César pedem que regresse, tendo ele antes viajado a Rodes para tomar lições de retórica com Apolônio Molon, professor de Cícero. Vocacionado, César é admirado em Roma por sua eloquência e "sua afabilidade, polidez e acolhida graciosa para todos" predicados que lhe dão enorme popularidade, destacando-se nos tribunais, sendo eleito para o cargo de "tribuno dos soldados". Seu brilho refulge quando pronuncia a oração fúnebre nas exéquias da mulher de Marius. O costume era de discursos apenas quando faleciam mulheres idosas, sendo César o primeiro que o fez perante um jovem cadáver. Logo vai para a Espanha. Na volta, tendo falecido sua esposa Cornélia, casa com Pompeia Sula. A filha de César do primeiro casamento se unira a Pompeu, que seria seu parceiro no primeiro Triunvirato Romano, composta também por Crasso. Seguem-se inúmeros episódios de tramas e embates. César é eleito para o Senado. E Catulo censura Cícero por não haver incluído César na conspiração liderada por Catilínia.
Havia, em Roma, um belo e jovem patrício chamado Públio Clodius, "distinto pelas riquezas e oratória, cuja insolência e audácia eram superiores às dos homens mais famosos pela perfídia"; e que amava Pompeia, a mulher de César, sendo correspondido por ela. Contudo, a casa de César era muito guardada, principalmente por Aurélia, sua mãe, mulher de grandes virtudes, que não descurava da vigilância da nora. Nem precisa dizer-se quão perigoso era Clodius encontrar-se com Pompeia. Sucede que, assim como as gregas adoravam Ginecea, mãe de Baco, as romanas idolatravam uma divindade chamada "Boa Deusa", para os frígios mãe de Midas, para os latinos apenas uma ninfa que tinha relações sexuais com Fauno.
E na festa daquela deusa, as mulheres cobriam as tendas com galhos de videira e um dragão era posto aos pés da estátua. Enquanto durassem ditos "mistérios", os homens não podiam ficar no local. O dono da casa e outros habitantes masculinos eram obrigados a se afastar. A moradia é enfeitada. As cerimônias eram noturnas e as vigílias constavam de divertimentos e concertos. Quando a festa se realiza na casa de César e de Pompeia, observam-se as restrições. E Clodius, jovem imberbe, para não ser reconhecido, veste-se como uma das musicistas, uma rabequista, sendo introduzido no local por Abra, escrava e confidente de Pompeia. Como esta tardasse, inquieto, Clodius transita por outras peças, evitando as luzes, mas é achado por uma das escravas de Aurélia, que acreditando falar com pessoa de seu sexo, quis prendê-la e brincar com ela. Ante a recusa, a escrava indaga de onde viera, sendo ele traído pela voz. A escrava grita, as mulheres acodem, Aurélia faz cessar a cerimônia, manda fechar a casa e depois de minuciosas investigações Clodius é surpreendido no quarto da escrava que o havia introduzido na residência, identificado e expulso. Na mesma noite "as mulheres saíram da casa e foram contar a seus maridos o que tinha acontecido". No dia seguinte, a notícia se espalha sendo a cidade informada que Clodius cometera "horrível sacrilégio", dizendo-se que devia ser punido rigorosamente "para uma reparação estrepitosa, não somente para satisfação daquelas que ele tinha pessoalmente ofendido, mas também para a cidade e para os deuses que ele tinha ultrajado".
Clodius é levado ao tribunal como culpado de impiedade; os principais senadores falam contra ele, acusam-no de outros delitos, em particular, de relação incestuosa com sua irmã, mulher de Lúculus. O povo toma o lado de Clodius, assustando aos juízes. César repudia publicamente Pompeia. Chamado com testemunha declara desconhecer os fatos, o que causa estranheza. Se assim acontecera porque repudiara a esposa, pergunta o acusador, a que César responde: "É que a mulher de César deve estar acima de qualquer suspeita".
Alguns pensam que César falara como pensava; outros que ele quis agradar ao povo que desejava salvar Clodius. Clodius é inocentado depois de os juízes opinarem a respeito de vários assuntos, cumprindo o "ferre sententia per saturam", expressão tomada dos pratos da balança, nos quais se colocavam vários manjares, daí derivando a palavra "sátira", gênero literário, para evitar o ressentimento do povo pela condenação ou pela absolvição formal e não se desonrarem perante os bons cidadãos.
Daí nasce o conhecido brocardo: "À mulher de César não basta ser honesta, tem de parecer honesta".
O imperador romano, mais tarde, casa com Calpúrnia Pisão com quem convive até seu assassinato. Mas tem outros casos, com mulheres e homens, inclusive com Cleópatra VII, que teria dele gerado o filho Cesarião. Outros maledicentes afirmam que Mário Júnio Bruto, que o matou, seria seu filho com Servilia Cipia, fato negado pela maioria dos escritores. Seu sucessor, Caio Otaviano, era seu sobrinho-neto e adotado, e possivelmente amante, o que alguns atribuem à "difamação política". Como se vê a vida de César era bem movimentada. Há mais episódios. E bem picantes.

Leituras: Plutarco, "A vida de Júlio César", Coleção Saraiva, 1966. Suetônio, "A vida dos Doze Césares", Martin Claret, 2006.

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