ANO: 25 | Nº: 6311

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
01/06/2019 Marcelo Teixeira (Opinião)

Tédio confortável

"Sabe aqueles dias em que horas dizem nada? / E você nem tira o pijama, preferia estar na cama. / Um dia a monotonia tomou conta de mim. / É o tédio, roubando meus programas esperando o meu fim. / Sentado no meu quarto, o tempo voa. / Lá fora a vida passa e eu aqui à toa. / Eu já tentei de tudo, mas não tenho remédio, pra livrar-me desse tédio."
Quem vivenciou a Era do Rock Nacional dos anos 80, provavelmente não terá dificuldade em reconhecer esse trecho da música "Tédio", da banda "Biquíni Cavadão", que retrata e sintetiza com muita propriedade a desagradável sensação de quem fica eventualmente entediado, sobretudo na juventude.
À medida que vamos envelhecendo o tédio vai paulatinamente deixando de ser tão desagradável. Ocasionalmente se torna desejável e, muitas vezes, acaba ficando até confortável. Minha avó, que sempre foi uma mulher muito ativa e independente, depois de entrar na "melhor idade" começou a recusar convites para sair e viajar sob a desculpa de que a cidade estava muito violenta e que se ela saísse iriam arrombar a casa e roubar seus móveis e eletrodomésticos.
Inicialmente, achei estranho e até acreditei que a violência era uma ameaça real, mas aquela desculpa contrastava com o aparente descontentamento com aquela vidinha monótona de cuidar da casa e do meu avô que era mais velho e adoentado. Os convites para sair e viajar vinham de todos os lados, visando proporcionar momentos diferentes, de convívio e diversão, para que ela saísse daquela rotina, mas ela era dura na queda e raramente tínhamos sucesso em conseguir tirá-la de casa. Todavia, quando conseguíamos, quase sempre ficava flagrante o desconforto dela em abandonar sua rotina.
Meus avós já faleceram, passei por situação similar com o meu pai, nos anos que antecederam o seu falecimento e acompanhei histórias muito parecidas em outras famílias. Os velhinhos vão se retirando do cenário, não achando graça em nada, demonstrando desalento com sua vidinha monótona, mas ficando mais incomodados ainda quando são retirados daquela rotina.
Percebi tardiamente que se trata de um fenômeno natural e predominante entre os idosos e que nem os animais domésticos escapam desse destino. Meu poodle, quando novinho, adorava sair para rua, passear de carro ou a pé, demarcar seu território, saudar as pessoas que passavam na calçada e ficar horas contemplando o cenário externo da casa. Hoje, velhinho, ele até ensaia algum entusiasmo quando vai para a rua, mas aquilo dura muito pouco tempo. Só o necessário para satisfazer suas necessidades fisiológicas e pronto! Logo depois, ele já regressa para sua confortável caminha dentro de casa. Os cães ainda se esforçam em demonstrar algum entusiasmo, mas os gatos velhos, nem isso!
A maioria das pessoas amaldiçoa a rotina, almeja sair dela, mas sem abrir mão do controle da situação, ou seja, quer sair da rotina, mas não quer o caos; quer sair da rotina, mas não quer entrar numa indiada. Até topam alguns imprevistos, mas nada que implique em desconforto ou constrangimento, demonstrando que a rotina tem lá os seus encantos e não é tão insuportável como dizem. Com o passar dos anos, pode ficar até confortável como resume bem a expressão "zona de conforto" onde o tédio é desejado. Diante das incertezas dos caminhos desconhecidos, é preferível continuar com as certezas dos caminhos conhecidos. E viva o tédio!

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