ANO: 25 | Nº: 6257

Luiz Fernando Mainardi

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Deputado Estadual
05/06/2019 Luiz Fernando Mainardi (Opinião)

Por que tanto ódio aos pobres, Bolsonaro?


O atual presidente da república disse recentemente que o problema do PT era que gostava de pobres. Tentou fazer uma ironia, mas cometeu, na verdade, um ato falho, que é aquele erro de linguagem revelador de um pensamento ou posicionamento que quer esconder. Se ele acha que o problema do PT é gostar de pobres, fica evidente, pela lógica, que ele não gosta. E isso, infelizmente, tem ficado muito claro em várias das suas decisões.
Vejam o caso da proposta de reforma da previdência que enviou para o Congresso, por exemplo. O primeiro problema dessa proposta é que ela não está "nem aí" para as pessoas. O argumento central da proposta é que o Estado vive uma crise fiscal e precisa economizar e o custo para sustentar as aposentadorias está muito alto. A proposta visa, fundamentalmente, a economizar R$ 1,2 trilhão nos próximos 10 anos. Nenhuma preocupação com as consequências na vida real das pessoas dessa economia que pretendem fazer.
Quando sabemos que a média das aposentadorias está em torno de R$ 1.300,00, fica evidente que o discurso governamental de que a reforma tem a pretensão de fazer justiça é uma grande "balela". Como assim fazer justiça, diminuindo proventos de quem ganha essa média salarial? Apenas esse dado nos permite concluir que a tal reforma pretende, na verdade, é tirar dos pobres, mesmo que seja um pouquinho de cada um, para garantir a economia que o Estado quer fazer.
E os ricos, presidente, esses não precisarão dar qualquer contribuição para o tal do buraco fiscal do país? Como a mídia hegemônica tem ajudado o governo a disseminar uma versão fantasiosa dessa reforma, está escondido, por exemplo, que, mesmo que fosse verdadeiro o déficit previdenciário (o que já está provado ser outra "balela", porque a Constituição previu financiamento para a Seguridade Social, como um todo, rubrica orçamentária que nunca teve déficit, mesmo que alguns dos impostos criados para financiá-la tenham sido desviados para outros fins), existem muitas outras formas de compensá-lo, sem prejudicar os pobres. Uma das medidas possíveis, por exemplo, é diminuir o juro, economizando no pagamento da dívida interna para quem compra os títulos do governo. Mas bem, isso mexerá com o interesse dos bancos e dos rentistas, e isso o governo não quer fazer.
Mas a maior injustiça de todas é a que prevê a mudança no sistema, incluindo o que se chama de sistema de capitalização nas aposentadorias futuras. Pelo sistema de capitalização, a previdência funciona assim: durante toda a vida de trabalho de qualquer um, o Estado retira uma percentagem do salário (10% ou mais) e investe isso em um fundo, que é gerido pelo sistema financeiro (ou pelos bancos ou por financeiras que criem fundos de aposentadoria). Esse fundo é composto apenas pela contribuição do trabalhador; nem os governos nem os patrões precisam colocar qualquer tostão para contribuir com a aposentadoria de seus funcionários. Ao se aposentar, o trabalhador tem que sobreviver com o que poupou durante o seu tempo de trabalho. O resultado é que os bancos ganharão dinheiro durante todo esse tempo (porque poderão investir esses recursos em negócios mais rentáveis) e os trabalhadores precisarão se virar com a sua própria poupança, sem qualquer garantia de solidariedade do Estado com sua aposentadoria.
Esse modelo, chamado de Capitalização, já foi testado em outros países, sendo que a maioria desses países reverteram esse sistema por causa dos danos que gerava na vida dos mais idosos. No Chile, o exemplo mais bem acabado deste modelo, 50% dos aposentados recebem entre 20% e 40% do salário que recebiam na ativa, sendo que 79% têm aposentadorias menores do que o salário mínimo e 44% vivem, hoje, abaixo da linha de pobreza. As repercussões sobre a vida dos idosos pobres são evidentes, que tornaram o Chile um país com alto número de suicídios nesta faixa da população.
Olhando de perto a maldade que está por trás desta proposta de previdência apresentada como "salvadora" para o país, a gente só pode se perguntar: por que tanto ódio aos pobres, presidente?

Líder da bancada do PT na AL

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