ANO: 25 | Nº: 6256

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
06/06/2019 João L. Roschildt (Opinião)

Os desgraçados

Quando a sociedade compactua com a ideia de que desejos equivalem a direitos, não surpreende o predomínio da ausência de limites. Afinal, caprichos são caracterizados por ambições particulares que carecem de grandes justificativas públicas. E, dentro dessa mentalidade, que é assemelhada a de uma criança sem educação, se ânsias individuais habilitam alguém a ser titular de um direito, por qual razão tais apetites deveriam ter restrições?

Curiosamente, o campo do humor está padecendo desse problema. Enquanto os defensores do politicamente correto almejam ceifar a palavra jocosa por ofender os desejos de alguns grupos sociais, os ardorosos membros do politicamente incorreto julgam que sua liberdade de expressão pode ser pautada por desejos de maneira ilimitada. Ambos não se dão conta, mas acabam algemados na cela do individualismo.

Por mais que o cerceamento da liberdade de expressão seja um absurdo, compreender que existem extremidades razoáveis e valorosas que não podem ser rompidas, sob pena de perder o próprio sentido da existência social, é algo necessário para o amadurecimento de um povo. Ao contrário, permaneceremos na pior infância: a do intelecto carente e vazio de significados.

Dois exemplos recentes podem ajudar a explicar o que foi dito. No início de fevereiro deste ano, o jogador de futebol Thiago Neves, do Cruzeiro, publicou uma imagem em seu Instagram digna de repúdio. Com o intuito de provocar o rival de seu time, o atleta divulgou uma fotografia de um muro do centro de treinamento do Atlético-MG, seguida da seguinte mensagem: “Barragem que já caiu uma vez assusta moradores de Vespasiano e região”, aludindo ao rebaixamento à segunda divisão do Campeonato Brasileiro, sofrido por esse time no ano de 2005. Por sua vez, a “piada” do jogador fazia referência ao bem conhecido rompimento da barragem de Brumadinho, ocorrida em 25/01/2019, e que vitimou, até o presente momento, 240 pessoas (outras 32 permanecem desaparecidas).

Já Marcelo Crivella, prefeito do Rio de Janeiro, em 28/05/2019, ao comentar a péssima situação da Ciclovia Tim Maia, uma estrutura que já caiu algumas vezes, tentou fazer uma “brincadeira” futebolística com os ocorridos: “Tem muito vascaíno aqui, não? Eu queria até consultar vocês. O pessoal está me sugerindo aqui de colocar o nome da ciclovia de Vasco da Gama. Está caindo muito”. Boçais pela própria natureza, os presentes deram ruidosas gargalhadas e ainda foi possível ouvir de um presente: “Aprovado!”. Lembrando que, em 2016, o desabamento dessa obra tirou a vida de duas pessoas.

Nem é preciso apelar para dizer que, caso os “humoristas” em questão tivessem perdido pessoas próximas com as tragédias mencionadas, não haveria qualquer tipo de “piada” a respeito. Mas, as seitas do futebol e a ideologia da bola tendem a instrumentalizar vidas em nome de suas causas. Nada muito diferente da política.

Parcialmente na contramão, o crítico social português Miguel Esteves Cardoso disse que “o humor é um sentido como o olfato. Assim como quase tudo tem um cheiro, quase tudo tem a sua graça. Mesmo as maiores desgraças. Pode dizer-se que a graça que elas têm é cruel ou de mau gosto ou – pior ainda – que não têm piada nenhuma. Mas não há desgraça que não tenha sua graça”. Na verdade, não existem desgraçados que não queiram fazer graça.

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