ANO: 25 | Nº: 6254

Fernando Risch

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Escritor
07/06/2019 Fernando Risch (Opinião)

O chão de Bolsonaro desmorona

Na história das nossas Repúblicas pós-Era Vargas, quatro presidentes eleitos concluíram seus mandatos na totalidade: JK, General Dutra, FHC e Lula. Somos uma nação impaciente e com tendências antidemocráticas. Em melhores palavras, somos parlamentaristas num regime presidencialista. Dissolvemos governos, que só poderiam ser derrubados com crimes, da mesma forma que tomamos café da manhã. Para governar no presidencialismo brasileiro é necessária força política e estabilidade econômica. Infelizmente para Bolsonaro (e para o Brasil) são coisas que o atual presidente não têm.

Bolsonaro não é o líder que constantemente é pintado por sua claque. Um líder une, Bolsonaro divide. Um líder estabiliza, Bolsonaro cria caos. Um líder apaga incêndios, Bolsonaro põe chamas. Um líder gera crise, Bolsonaro é a crise. Num simples pensamento estatístico, pela amostragem das ações do presidente antes mesmo de tomar posse até agora, a lógica caminha para o mesmo lado: a queda, seja pelo caminho que for. O mais provável é um golpe light, assim como o de Dilma. Acha-se um pretexto como bode expiatório e se vota pelo "conjunto da obra".

Bolsonaro parece viver de cortinas de fumaça. Quando ele mesmo não cria a crise para que os lados exaltados políticos se enfrentem num debate quase ilógico, ele convoca um de seus ministros para tal, geralmente Damares, Ernesto Araújo ou o tresloucado que estiver na pasta da Educação. Enquanto o Brasil agoniza em desemprego, a única pauta econômica do governo é enfiar goela abaixo uma reforma previdenciária impopular, sem o devido debate e sem que Bolsonaro se esforce politicamente para tal. Enquanto o brasileiro se embreta em dívidas, desemprego, atirado na informalidade, Paulo Guedes e Bolsonaro chantageiam dizendo que se a Reforma da Previdência não passar, o Brasil não cresce e os problemas não se resolvem.

E a questão não é nem ser a favor ou contra a reforma ou dizer que Paulo Guedes tem razão ou não em sua afirmativa, a questão é que só pedir a aprovação pela imprensa, pagando milhões ao Ratinho e ao Sílvio Santos para falarem bem da proposta, não vai fazer com que os parlamentares a aprovem. Em vez de Bolsonaro estar se reunindo com deputados, explicando a cada um deles detalhadamente seu projeto de Brasil, para que a proposta seja aprovada, o presidente diz não ter tempo para tal, mas vai a jogo da Seleção Brasileira, com direito a visitar Neymar no hospital.

Bolsonaro não tem traquejo político, não sabe suas atribuições como presidente e parece ter preguiça de atuar como tal. Suas pautas são sempre identitárias ou contrárias à ciência e pesquisa, que não resolvem os problemas reais da população, que hoje são inteiramente econômicos.

Somando as pautas antieducação e antimeio ambiente com propostas simplesmente contrariando as estatísticas, como a reformulação de leis de trânsito, que extingue teste toxicológico de motoristas, aumenta o limite de pontos na CNH, retira radares das vias, permite que motociclistas andem sem capacete e, pasmem, desobriga pais a colocarem seus filhos pequenos em cadeirinhas de bebê (o que diminuiu em 60% o número de mortes de crianças no trânsito). Bolsonaro dissolve sua popularidade já decaída e cria revoltas nas ruas contra si.

Enquanto Bolsonaro se preparava para ver Neymar sair lesionado de campo, seu partido, o PSL, se partia violentamente em comissão especial no Senado, com Joice Hasselmann, líder do governo, batendo de frente, em plena tribuna, com um furioso Major Olímpio, lavando roupa suja do partido aos olhos de todos. Mas nada disso parece perturbar o homem que pensa ser intocável.

De uma impopularidade nas ruas à falta de apoio político no Legislativo é um passo para uma queda. Bolsonaro, talvez, não concluirá o mandato. Numa aposta ousada, creio não fechar dois anos como presidente da República. E se até lá os institutos de pesquisa não forem extintos, como bem parece ser uma pauta do governo, Bolsonaro se postula na estatística popular ao título de pior presidente da história. Resta aguardar.

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