ANO: 25 | Nº: 6312

Marcelo Rodríguez

marcelo.errebe@gmail.com
Acadêmico de Jornalismo da Urcamp
07/06/2019 Caderno Ellas

Para que rótulos?

Foto: Reprodução/Freepik

Em 28 de junho de 1969, o Stonewall Inn foi invadido pela polícia de Nova York. Para quem frequentava bares da comunidade LGBTQIA+, era uma situação comum. Mas naquele dia, foi diferente. Ao invés de se submeter à truculência policial, um grupo decidiu confrontar. A partir disso, foram cinco noites de protestos pelos direitos da comunidade. Esse foi o pontapé inicial para os 50 anos de luta, que se comemoram neste mês de junho. Hoje, vamos falar sobre a importância de uma luta que também é individual, diária e constante.

Stonewall foi o marco para o surgimento de organizações de direitos LGBTQIA+ nos Estados Unidos e no mundo inteiro. Um ano depois, em 1970, a comunidade relembrou o fato com a primeira Parada do Orgulho, em Nova York, Los Angeles, São Francisco e Chicago. Ao longo dos últimos 50 anos, a luta ao redor do mundo trouxe resultados extremamente positivos, porém, ainda, insuficientes para garantir uma vida segura e tranquila a cada um dos integrantes de uma comunidade tão diversa e abrangente em questões de gênero e sexualidade.

As mudanças sociais dos últimos tempos dão a falsa sensação de que a comunidade LGBTQIA+ já conseguiu o que precisava. Mas, dados coletados pela empresa Google apontam uma situação ainda complicada em grande parte do planeta. Apenas 28 países reconhecem legalmente o casamento homossexual, enquanto em 167 ainda é ilegal. A mudança de gênero no registro civil é ilegal em 20 países. Em 143 ainda não há leis contra a lgbtqia+fobia. Em apenas cinco países há garantias estabelecidas nas constituições.

Essa mesma sensação de “nova sociedade” acaba gerando uma ilusão, inclusive naquelas pessoas mais progressistas e engajadas com questões sociais. Já perdi a conta de quantas vezes ouvi pessoas não heterossexuais se recusarem a estabelecer um “rótulo”, isto é, se posicionarem socialmente como gays, lésbicas ou bissexuais, por exemplo. “Ah, eu não preciso de um rótulo”, “Pra que rótulos? Não quero ser colocado em uma caixa”, enfim, são muitas as frases. De certa forma, elas fazem sentido, afinal, em uma sociedade ideal não se precisaria de rótulos.

Porém, se definir, de alguma maneira, principalmente dentro da comunidade LGBTQIA+ faz parte de um ato político. Não quero, com isso, dizer que as pessoas precisam sair contando a torto e direito as suas experiências sexuais, por exemplo. Mas, sim, deixar claro àqueles ao seu redor sobre o seu “rótulo”. Isso significa, não apenas visibilidade para a comunidade como um todo, mas também representatividade. Uma representatividade que, dentro dos pequenos núcleos sociais, colabora no processo de plena aceitação da comunidade.

Em um momento mundial complicado para as minorias, precisamos entender que ninguém vai abraçar uma luta alheia. Mais do que nunca, a comunidade LGBTQIA+ deve estar unida. Isso inclui, aliás, um processo para acabar com os preconceitos que ainda existem dentro dela mesma. Para que rótulos? Para que o resto da sociedade entenda que temos orgulho da nossa luta, do que somos e da nossa história. Para que o sangue lgbtqia+ que é derramado todos os dias não seja em vão.

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