ANO: 25 | Nº: 6331

José Carlos Teixeira Giorgis

jgiorgis@terra.com.br
Desembargador aposentado e escritor
08/06/2019 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

João, Cap. 1º, Versículo 3º.

Quando o leitor mira a página dois deste periódico e vê o expediente, ou seja, quem são os diretores, repórteres, diagramadores, vendedores, funcionários administrativos constata que encabeço a lista de colaboradores. Ou seja, sou o mais antigo escriba a manter crônicas periódicas, o que me dá o honroso título de "decano", que, enfaticamente, pode ser o mais velho membro do corpo diplomático; ou o mais longevo numa instituição universitária; ou simplesmente, o mais idoso de um grupo ou de uma turma (devia dizer "vulnerável" para ficar na moda?).
Pois, nesta condição, cumpro a honra etária de saudar o primeiro livro de João L. Roschildt, que junto a Marcelo, José Artur, Norberto, Airton, Dilce e  Fernando, compõe o octeto fidelizado de quem, uma vez por semana, senta à frente da alva página e desafia o teclado a criar um texto ao sabor do silêncio da inspiração. Cada um contribui com sua circunstância própria. Marcelo registra o cotidiano, recorda suas lembranças; José Artur, Norberto e Airton, com seus jeitos e apostolado, tentam nos lembrar da vida eterna e convencer-nos a abdicar dos pecados veniais; Dilce, experiente com as almas, cataloga condutas, aconselha, flagra; Fernando, com seu talento de ficcionista, costuma se insurgir com as contradições da vida política e invectivar as falsidades. E João? É impiedoso com os exageros do politicamente correto; é sarcástico com as dubiedades pessoais; é sereno na ponderação das doutrinas; revolta-se com a intolerância de muitos; e debate com sapiência os enigmas da realidade, não sendo condescendente com os néscios.
Seus artigos não cedem à mediocridade, tem base culta e compromisso com a verdade que, como filósofo, propôs-se a respeitar. Difícil não encontrar neles a referência adequada, a pesquisa responsável, a leitura correta de trechos canônicos. É atual, comenta a modernidade, pinça aqui e lá o que pensa algum ilustre, emite opiniões com a persuasão alavancada nos doutos.
Se fosse vaidoso poderia dizer que o registrador deixou de acrescer um "t" no meio de seu sobrenome, o que o tornaria membro da poderosa Casa dos Rotschildt, o que lhe abriria as portas da abastança e retrato no solar dos nobres, de quem já tem, na verdade, a barba e a calva, o porte esguio e as maneiras fidalgas. Hosanas à Cíntia que foi buscá-lo nas faldas da fronteira e trazê-lo – e sem garrote - para o convívio dos eleitos que hão de recolher, nas salas de aulas ou na subida das arcadas da faculdade, o ensino sólido, a orientação segura e o saber fecundo do professor.
Isso me assoma quando João autografa seu livro "A grama é verde", título que em sua aparente simplicidade evoca numerosas ilações e incidências e que abriga o conjunto de seus apreciados escritos neste jornal. Uma obra seminal. Que faz meditar. Interroga. E desvenda.
Sei que depois, a meu pedido, cumprirá outra misericórdia: a história da filosofia em Bagé, tema já imaginado por Clóvis Assumpção e que espera ainda um autor.
Deixei-os curiosos com o título? Explico: Versículo 1º, Cíntia; versículo 2º, Joaquim; versículo 3º, a obra que irão hoje buscar com a assinatura de João Roschildt.
Isso para fugir do chavão de que todo homem deve plantar uma árvore, gerar um filho e escrever um livro.

 

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