ANO: 25 | Nº: 6400

Dilce Helena Alves Aguzzi

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Psicóloga
11/06/2019 Dilce Helena Alves Aguzzi (Opinião)

Tempo? Pra quê?

Parece mentira, mas nem sempre temos disponibilidade para vivenciar coisas das quais gostamos. Estamos justificando nossa própria insatisfação e infelicidade com a escassez exata e ironicamente daqueles momentos que nos levariam a sensação de satisfação e plenitude. Essa incongruência está relacionada ao momento histórico que vivemos - a era da falta de tempo inventada, programada e planejada. A era da crença cega, tal qual idade média, porém credulidade em outras coisas.
Alguém criou a concepção de falta de tempo e todos nós seguimos obedientes. Não há tempo a perder, não há tempo a desperdiçar, entretanto, também não há tempo para desfrutar. Sem disponibilidade para ficar um pouco ocioso, sem ocasião para ficar criativo e espontâneo, sem oportunizar a chegada da frustração como tomar inciativas? Não temos tempo para bobagens, não temos tempo para visitar sem motivo, jogar conversa fora, contemplar! Não há tempo na teoria, pois na prática nosso tempo é cada vez mais jogado fora, perdido em bobagens a reboque de modismos, trivialidades a respeito da vida alheia, jogos e passatempos que cultivam a insatisfação e a ansiedade constantes, curiosidades sobre novos produtos que facilitariam a vida para que sobre mais tempo... Tempo para quê?
Dessa forma ocupamos todas as oportunidades com distração, frequentemente o que nos distrai nos afasta de nossa natureza original, nos tornando semelhantes na ansiedade, na futilidade e na falta de profundidade. E aí surgem as promessas vazias, vou dar atenção a quem amo, fazer o que gosto, vou me dedicar ao que acredito, tentar concretizar aquele projeto, o sonho... Quando me aposentar, quando os filhos estiverem crescidos, quando eu comprar a casa dos sonhos, quando a situação financeira se estabilizar, quando o verão chegar, no próximo feriado prolongado, quando a casa estiver arrumada e sabe lá mais quantos empecilhos conseguimos arrumar para procrastinar a própria felicidade adiando pequenas coisas que nos fazem bem.
A vida acontece e se pronuncia em toda a sua plenitude com a casa cheia e bagunçada, com a pia suja, apesar da crise financeira, com a roupa gasta e apesar do cabelo desalinhado, sem tempo algum livre, sem idealizações, ela vem e se manifesta independente e indiferente aos nossos pré-requisitos tantas vezes mesquinhos. Criar o tempo de que precisamos é saber desvencilhar-se das ilusões do cotidiano que impedem a vida de fluir, aprisionando constantemente em pequenas e numerosas barreiras que nos roubam o fôlego. Ter disponibilidade implica em coragem. Nem sempre estamos à altura da expectativa dos outros, mas a satisfação vem da ousadia e originalidade em viver segundo nossas próprias e verdadeiras necessidades, isso exige liberdade e autoconhecimento.
"Eu não sou pobre, eu sou sóbrio, de bagagem leve. Vivo com apenas o suficiente para que as coisas não roubem minha liberdade." (José Pepe Mujica)

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