ANO: 25 | Nº: 6334

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
14/06/2019 João L. Roschildt (Opinião)

Realidade queimada

Para mentalidades que só pensam em martelos, tudo deve ser golpeado; para intelectos que romantizam foices, qualquer paixão lhe pede uma colheita; e, para revolucionários frustrados, qualquer tradição equivale à opressão. A submissão a tais sandices pode nos achatar como um prego, pode nos cortar como um cereal e pode nos privar dos bons valores que construíram nossa civilização.

Eis que a bola da vez é o jogo da “queimada”. Conhecido também como “caçador”, essa atividade competitiva consiste em uma disputa na qual os dois times envolvidos atiram uma bola de borracha na direção de seus oponentes com o intuito de acertá-los e eliminá-los do jogo. Em resumo, a equipe que tiver todos os seus membros excluídos perde a partida. Pois, de acordo com professores de três universidades canadenses, essa recreação, praticada nas escolas, não passaria de um mero instrumento de opressão.

Conforme exposto no jornal Washington Post, uma das líderes desse “estudo”, a professora Joy Butler, alega que, como o intuito do jogo é a aniquilação do adversário, “a mensagem é que não há problema em ferir ou desumanizar o ‘outro’”. Partindo das bases teóricas expostas no artigo “Five faces of opression”, da aclamada feminista Iris Marion Young, os “pesquisadores” chegaram à conclusão de que as respostas obtidas com os estudantes, alvo da investigação, se enquadravam claramente nas cinco perspectivas de opressão de Young: exploração, marginalização, impotência, imperialismo cultural e violência.

Ainda, com base no National Post, os “estudiosos” reforçaram que “ao considerarmos o potencial da educação física para empoderar os alunos, envolvendo-os em práticas críticas e democráticas”, a “queimada” seria antiética porque reflete a escolha dos mais fortes e ágeis estudantes. Segundo a Fox News, Butler asseverou: “É o mesmo que legalizar o bullying”. Por fim, para outra responsável pelo “estudo”, Claire Robson, “não somos anticompetição ou antidesafio; essas coisas precisam ser feitas em um contexto educacional”. Eis a utopia do mundo higienizado dos males humanos.

Reparem que, na crença que envolve o politicamente correto e suas variantes progressistas, eliminar alguém em um jogo significa tratá-lo com falta de humanidade; a atividade física escolar vê-se nas mãos de ideologias políticas que devem empoderar e democratizar o ser humano para que possa fazer análises críticas (palavras desprovidas de qualquer significado para o corpo... a não ser que o corpo seja visto como locus de difusão política como pensam os esquerdistas); e que a competição deve estar inserida em uma ótica educacional em que os vencedores não possam ser tão vencedores assim, afinal, vencer é oprimir o perdedor. Ora, mas não seria o processo de compreensão da eliminação ou de derrota no esporte um catalisador para entender a dinâmica da vida pessoal e profissional da pessoa? Ou devemos ser educados em bolhas de vitórias que são artificialidades e fantasias do que os “engenheiros sociais” imaginam como correto?

Ora, um jogo ou um esporte tem a capacidade de mostrar que as derrotas podem ser firmes trampolins para vitórias, e que superar desafios faz parte da natureza humana. Negar tais características é negar parte das qualidades intrínsecas que formam os indivíduos. É o mesmo que desumanizar e oprimir o intelecto.

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