ANO: 25 | Nº: 6334

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
15/06/2019 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

24 conselhos para a esposa perfeita

Os escritores dizem que a emancipação da mulher brasileira aconteceu com a migração da família rural para as cidades; e apontam três causas para o fenômeno: a urbanização, ou seja, o aparecimento das metrópoles; a industrialização que determina a transferência de muitas funções antes masculinas para os braços femininos; e, finalmente, a educação que se transfere do seio da família, da mãe ou da preceptora para missão estatal. A mulher deixa de ser a “rainha do lar”, enfermeira ou professora e assume novas vocações. Hoje, as luzes midiáticas se debruçam sobre dois temas: o fortalecimento do feminismo e as agruras dos feminicídios.
Para contar um episódio aqui acontecido, em 1901, é necessário breve contexto sobre o domínio do Partido Republicano de Júlio de Castilhos, a criação do jornal A Federação e, principalmente, a apoteose do positivismo, doutrina onde é notória a valorização da mulher. Augusto Comte deseja superar a religião que coloca toda perfeição no âmbito celeste, “desconhecendo a dignidade do trabalho e considerando a mulher fonte de todo mal”, quando ela deva ser o novo símbolo da República, “educadora por excelência, com a primazia do sentimento sobre a inteligência”. Não é por menos que para homenagear sua dolorida paixão por Clotilde, coloca a mulher no topo dos mestres de sua religião da humanidade. Como anota a professora Hilda Flores, o positivismo guindou a mulher à monarca da casa, cabendo-lhe zelar pelo marido e educar os filhos no respeito aos vultos cívicos dignos de servirem de exemplo, de modo a se tornarem cidadãos úteis à pátria, bons soldados e maridos provedores. “Anjo ou guardiã, na prática, a mulher se viu (e talvez nem tenha notado) seu mundo restringir-se ao espaço doméstico, tendo que abrir mão de quantos avanços econômico-sócio-culturais já havia trilhado”.
Aqui, já relatei a existência de importantes mulheres na imprensa e até em gestão de jornais. E referi a presença nestas plagas de Andradina de Oliveira, que haveria de se tornar uma das mais importantes figuras nas lutas contra o preconceito e literata, hoje, erigida ao panteão rio-grandense. Personagem, repita-se, que está a merecer olhares mais atentos dos pesquisadores conterrâneos sobre sua vida bajeense.
Na época focada, se destacavam as irmãs Revocata Heloísa de Melo e Julieta de Melo Monteiro, nascidas em Porto Alegre, mas se criaram no “ambiente inquieto” de Rio Grande, então cidade aberta às novidades de além-mar. Professoras, poetas, jornalistas e teatrólogas, além de abolicionistas e federalistas, as irmãs Melo, entre outras produções, criaram uma revista literária chamada Corimbo, para defender suas ideias, e onde Andradina publica um conto feminista e depois seu livro O divórcio.
Em junho de 1901, cansadas do cerceamento do regime em relação às mulheres, as irmãs Melo estampam “uma matéria jocosa sob o manto de seriedade, como forma de criticar sem incorrer na sanção sobre quantos ousavam fazer oposição a Castilhos”, intitulada “Contrato original de casamento”, de autoria de Ferdinando Martino e que transcrevo:
“O pai da noiva pede ao futuro genro que marque a data do casamento. Esse quer, antes, esclarecer à noiva alguns itens necessários à felicidade do futuro casal. Se ela não quiser se sujeitar ao modo e sistema de encarar a vida conjugal, ficará tudo desfeito. O sogro concorda. E o noivo entrega à moça uma folha de papel com os dizeres:
Nós, abaixo-assinados, de pleno acordo e harmonia, juramos cumprir com precisa fidelidade até o dia de nossas mortes, os seguintes quesitos: 1. Eu, Honorina Gabriela de Almeida, amarei acima de todas as coisas a Deus e a meu marido. 2. Dir-lhe-ei sempre a verdade. 3. Visitarei minha mãe somente no primeiro domingo de janeiro, abril, julho e outubro, e, fora disso, quando estiver doente. 4. Nunca revelarei à mesma, nem a qualquer pessoa, as faltas de meu marido. 5. Só farei uso das joias que meus pais e meu marido me brindarem. 6. O meu vestuário será simples e decente. 7. Só irei às diversões do agrado de meu marido, e sempre em sua companhia. 8. Em sua ausência não pagarei visitas e nem abrirei contas senão as indispensáveis, e na janela só permanecerei debruçada curtos instantes. 9. Serei a primeira a erguer-me do leito ao despertar do dia, para aprontar o café, arrumar a casa, dar ordens à criada, observar o asseio da cozinha, dos pratos, panelas, xícaras, talheres; limpeza dos aposentos e do pátio; assim como determinar o preciso para o almoço e jantar, e não consentirei que criadas levem trouxinhas para casa. 10. A toda e qualquer hora da noite que meu marido bater à porta, irei abri-la e recebê-lo-ei carinhosamente, sem perguntar-lhe os motivos de sua tardança. 11.Todos os fins de mês apresentarei um relatório da despesas e recibos das contas pagas, para evitar enganos. 12. Cortarei toda e qualquer relação com aquelas pessoas que vierem censurar meu marido, seja no sentido que for. 13. Conservarei sempre sua roupa em boa ordem, sem falta de botões e sem bolsos furados. 14. Serei religiosa e temente a Deus sem fanatismo. 15. Nas palestras de meu marido com seus amigos, só comparecerei a seu chamado. 16. Se tivermos filhos, serão por mim amamentados, salvo ordem contrária do médico. 17. Estarei sempre munida de uma excelente botica homeopática com um bom autor, que estudarei convenientemente para combater a tempo e hora as moléstias a meu alcance. 18. Quanto à leitura de outros livros, só lerei os que me forem confiados por meu marido. 19. O ciúme, parasita ridículo e vergonhoso, não se aninhará em meu coração. 20. Quando meu marido estiver contrariado, evitarei dirigir-lhe perguntas. 21. Evitarei quanto possa pedir emprestados aos vizinhos os objetos de seu uso doméstico. 22. Quanto às amigas que me visitarem, cuja conversa é sobre procedimentos e ditos de outras mulheres ou mesmo de homens, usarei constantemente água fria na boca, dizendo que estou com dor de dentes. 23. Quando meu marido estiver zangado comigo, que tenha ou não razão, farei profundo silêncio, e quando houver oportunidade lhe farei ver o quanto foi injusto, ou lhe pedirei desculpa de minhas faltas. 24. E finalmente, prestarei a meu marido plena obediência, gozando e sofrendo com ele os revezes da sorte. E eu, Ferdinando Martino, desde que minha mulher cumpra a risca os 24 quesitos acima expressos, juro e prometo ser um marido modelo e que Deus e o desprezo dos homens me castiguem se faltar ao cumprimento de meus deveres de esposo, pai, amigo e cidadão.
A noiva leu o contrato e sua simpática fisionomia de anjo, tomou a forma de uma fúria dos infernos. Chamou-me de gringo estúpido, grosseiro, pedante e apelidou-me de tantos outros epítetos que não me animo revelar. Cáspide!, disse para comigo, de que me escapei. Essa rapariga por dá cá aquela palha, era capaz de atirar-me o cabo de vassoura na cabeça. Retirei-me sem dar-lhe uma única resposta. Meses depois casou com um rapaz carreirista que botou fora o que era da mulher e a fortuna do sogro. Tendo-se separado do marido, a ex-noiva, vivendo na maior indigência, veio oferecer-me seus serviços na qualidade de cozinheira, porém a minha cara metade, que nenhuma objeção pôs aos quesitos acima, por intermédio de uma velha linguaruda veio a descobrir que a sua cozinheira tinha sido minha noiva! Mas, graças ao quesito 19, finge tudo ignorar, e no lar reina celeste harmonia, graças aos 24 quesitos formulados por: Ferdinando Martino. Bagé, maio de 1901”.

Leitura: Hilda Agnes Hüber Flores. “Original Contrato de Casamento”. Presença Literária 1994, Revista da Academia Literária Feminina do Rio Grande do Sul, Porto Alegre: Nova Dimensão, 1994.

Ferdinando Martino, italiano, aqui viveu como jornalista (fundou “O Bageense”), boticário e literato. Além do Corimbo, também escrevia para a revista O Escrínio, de Andradina de Oliveira. Autor de O Caloteiro, conferência. Um beijo. Uma Cena Celeste, poema dialogado. Ao meu cavanhaque, soneto; e Brincos fatais. É um dos fundadores da Loja Amizade. Pai de Ferdinando Martinho Filho. Faleceu em 1901.

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