ANO: 25 | Nº: 6397

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
15/06/2019 Marcelo Teixeira (Opinião)

Hiprocrisias histéricas

Hipocrisia, por si só, já é difícil de aguentar, mas a hipocrisia dramática, histérica, com a intenção deliberada de provocar pânico ou de superdimensionar  acontecimentos ordinários, corriqueiros ou cotidianos, é mais difícil ainda. Como diz a sabedoria popular gaudéria: "tem que estar bem sesteado!" No final de 2006, durante a investigação do assassinato de uma menina menor de idade dentro de um motel na capital gaúcha, algumas autoridades públicas se disseram "espantadas" com o ingresso de uma menor dentro daquele estabelecimento, sem a autorização ou a companhia dos pais ou responsáveis, contrariando disposição expressa do Estatuto da Criança e do Adolescente.
Na época quem ficou realmente espantada foi a torcida da dupla Gre-Nal mais a da dupla Ba-Gua e a da dupla Bra-Pel, pois todas sabem, desde sempre, que uma das principais virtudes dos motéis está exatamente no anonimato dos seus hóspedes, ou seja, via de regra, quem frequenta motéis em zonas urbanas, quer mesmo é o mais absoluto sigilo sobre suas identidades, mesmo aqueles que não tem nada a esconder.
Outra reação hipócrita, mas infelizmente muito mais comum, é a daqueles que comentam sobre o "vazamento" na internet de vídeos com cenas íntimas de sexo. Normalmente a hipocrisia se dirige aos atos praticados pelas mulheres. Comentários ofensivos, pejorativos e até agressivos para adjetivar comportamentos e práticas femininas absolutamente corriqueiras na vida íntima de qualquer casal, ou seja, uma coisa que todo mundo faz e gosta, mas que provoca uma forte reação moralista, como se os agressores verbais fossem virgens celibatários que nunca viram aquilo antes e nem podiam imaginar que alguém era capaz de tanta indecência.
E tantas outras reações hipócritas e descabidas que, infelizmente, costumam se repetir com relativa frequência no nosso meio, para tristeza de quem não engole estas modinhas midiáticas ou das redes sociais. A mais recente, midiática e politicamente bem sucedida, diz respeito à troca de mensagens entre o procurador Deltan e o, então juiz federal, Moro. Fizeram uma alaúza, sugeriram uma conspiração, pleitearam uma anulação do julgamento por suspeição etc. Todavia, a montanha pariu um rato! Quando divulgaram a suposta conversa entre as autoridades republicanas diretamente responsáveis pela condenação do Lula em primeira instância, o que se viu é aquilo que todo mundo já está careca de saber. É algo absolutamente ordinário no convívio forense entre promotores e juízes.
Para evitar mal entendidos, não estou dizendo que isso seria correto ou aconselhável ou que não viola algum princípio jurídico, mas sim que isso é normal, ordinário, cotidiano. Juízes conversam com promotores, mas também com advogados e com as partes. Como mediador de conflitos, eventualmente faz recomendações ou aconselhamentos. O juiz não é um eremita que sai da clausura para a sala de audiências e da sala de audiências para a clausura. Alienação não é pressuposto para um julgamento isento.
É inegável, porém, que a relação entre juízes e promotores é mais estreita e isso se revela até na arquitetura das salas de audiência ou julgamento, onde o representante do Ministério Público senta ao lado direito do juiz e em posição superior à posição dos advogados, partes e testemunhas. Pode até não ser correto nem o mais indicado, mas é legal e milenar. Em alguns países, inclusive, juízes e promotores são cargos da mesma carreira.
Assim, só pode manifestar surpresa com o teor do diálogo quem não conhece a práxis forense, quem não assistiu a série "O Mecanismo" no Netflix, quem não viu o filme "Polícia Federal – A lei é para todos". Enfim, só reage histérica e hipocritamente ao vazamento destas conversas quem ainda não engoliu o resultado da última eleição.

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