ANO: 25 | Nº: 6334

Dilce Helena Alves Aguzzi

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Psicóloga
18/06/2019 Dilce Helena Alves Aguzzi (Opinião)

Sobre o descarte de pessoas

Numa sociedade baseada no consumo e no descarte não chega a surpreender que pessoas em seu trabalho sejam utilizadas e, posteriormente, descartadas e substituídas como peças de uma máquina.
Estou me referindo a aposentadoria. O desrespeito com que é tratado este importante momento na vida do profissional que se dedicou ao trabalho é assombroso. Lembrando em muito qualquer objeto feito para ser utilizado ao máximo e depois jogado fora. O profissional é simplesmente informado que não serve mais e deve ir para casa descansar. Ignora-se que a vida é feita de ciclos e que podemos nos preparar através da educação para cada um deles.
A preparação para a aposentadoria pode ser uma prática adotada por toda a instituição, criando sua forma de encaminhar e lidar com as inseguranças e conflitos característicos do momento com bastante antecedência e envolvendo todos os colaboradores no processo.
As pessoas lidam com suas ocupações de modo único. Para alguns há muitas atividades para realizar ao longo da vida em cada uma de suas fases. Mas, há também aqueles indivíduos que não conseguem se imaginar realizando outra atividade. Para estes a saída do trabalho é marcadamente dolorosa. E se for tratado sem nenhum tato e conhecimento humano por parte da organização, pior será.
Instituições mais atualizadas e humanizadas costumam levar em consideração a experiência, o grau de envolvimento e dedicação do trabalhador em sua vida profissional ao avaliar se ele deseja ampliar seu tempo de trabalho ou aposentar-se. No caso de desejar continuar a trabalhar recebe a oportunidade como reconhecimento de sua importância e dedicação, aliando a isso a ideia de reciclagem e atualização de conhecimentos. Ao contrário acontece com aquele que não é sequer consultado e simplesmente desligado, sente-se confuso, desvalorizado. É comum em tais casos vivenciar depressão e uma crise de valores.
Mesmo quando a aposentadoria é escolhida e desejada deve ser vivenciada de modo planejado, por parte da instituição e do profissional, permitindo elaborar o encerramento de ciclos, favorecendo que a pessoa não se sinta como objeto e possa sair compreendendo a importância de seu papel no processo do trabalho. Com a autoestima em alta por um processo de aposentadoria bem conduzido fica mais fácil dar novo rumo e refazer planos para uma etapa que começa.
Instituições retrógradas e despreparadas para lidar com seres humanos ainda não levam em consideração a vontade de seus trabalhadores, não reconhecem habilidades, não valorizam competências únicas, desconhecem a fidelização de anos de dedicação. Não sabendo o que fazer com bens tão preciosos e imateriais, não sabem conduzir o processo de desligamento, que por natureza já seria doloroso, tornando-o bem mais penoso. Por ser uma fase da vida bastante intensa e perturbadora, recomenda-se que todos trabalhadores procurem conhecer como tais assuntos são tratados pela instituição em que estão para não serem pegos de surpresa. Pois se não há uma política de preparação para aposentadoria, o próprio trabalhador pode procurar por ajuda especializada e conduzir seu processo de desenvolvimento pessoal e autoconhecimento para atravessar esse momento desafiador da melhor forma possível.

(A publicação deste texto é feita com pesar em homenagem a uma pessoa muito especial, preocupada com seu momento ao se aposentar. Professora e animadora cultural do Município Norma Barcelos do Amaral, falecida nesse final de semana. Ela forneceu as bases para esse artigo em 2014, revelando sua tristeza em não poder continuar trabalhando na Casa de Cultura Pedro Wayne.)


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