ANO: 25 | Nº: 6404
18/06/2019 Opinião

Um tropeiro bajeense do século XIX

por Jayme Collares Neto
Escritor

Acabo de doar para o Museu Dom Diogo de Souza o livro de meu trisavô, Francisco José Collares. Entre 1866 e 1880, ele trabalhou como tropeiro, registrando cada uma dessas tropas nesse livro que, agora, está disponível para os pesquisadores.
Esse documento é principalmente interessante porque pode ter relação com um episódio doloroso e, talvez justamente por isso, muito pouco lembrado de nossa história: a perseguição movida pelo povo e pelas próprias autoridades uruguaias contra os brasileiros que tinham propriedades rurais naquele país – sendo que boa parte desses brasileiros eram bajeenses, com sobrenomes como Collares, Brasil, Jacintho, Borba, Valério, Madruga, Netto, Pereira, Silveira, Oliveira, Rodrigues, Martins, Machado, Coelho, Vaz, Antunes, Corrêa, Porto, Pedra e outros. Essa perseguição começou na chamada Guerra Grande, que durou de 1836 a 1851, e seguiu cada vez pior até 1865.
Naquela época, praticamente todos os campos do Uruguai situados na faixa de fronteira com o Rio Grande do Sul estavam nas mãos de brasileiros. Ali, o Uruguai era como uma extensão do Brasil, como basta ver pelas palavras do deputado Silva Ferraz em um discurso de 01/03/1845: "Ao passar ao outro lado do Rio Jaguarão, senhores, o traje, o idioma, os costumes, a moeda, os pesos, as medidas, tudo, tudo, senhores, até o outro lado do Rio Negro, tudo, tudo, senhores, até a terra, tudo é brasileiro".
Com o fim da Guerra Grande, o Uruguai formou um governo unindo os partidos contrários, numa tentativa de pôr fim à velha rivalidade e às frequentes revoluções. Mas esse arranjo não alterou em nada a dramática situação dos brasileiros. Continuaram as prisões, torturas, assassinatos, confiscos de gado e de terras, assaltos a residências, etc. E continuaram as reclamações dos brasileiros ao governo imperial e os pedidos de providências deste ao governo do Uruguai, que nada fazia.
A situação se tornou de tal modo desesperadora que, em princípios de 1864, o general brasileiro Antônio de Souza Netto, residente em Paysandú, viajou até o Rio de Janeiro para pedir, pessoalmente, providências ao Imperador. Em 05/04/1864, o deputado Ferreira da Veiga pronunciou forte discurso sobre "as violências, roubos e perseguições cometidas no Estado Oriental pelas autoridades civis e militares da República, contra as pessoas e propriedades de súditos brasileiros ali residentes", no qual deu notícia de que "em Paysandú, acaba de declinar a honra de ser nosso vice-cônsul naquele departamento o digno Sr. Carneiro de Campos, declarando que não podia continuar naquele cargo, porque não tinha coragem para presenciar as humilhações, as ofensas, os ultrajes feitos a nossos patrícios".
Graças a Netto, o governo brasileiro finalmente se decidiu a agir, apoiando militarmente a revolução deflagrada no Uruguai pelo general Flores, que terminou vitoriosa no começo de 1865, com a tomada de Paysandú e, em seguida, de Montevidéu. Foi somente a partir de 1865 que os brasileiros residentes no Uruguai passaram a ser tratados da mesma forma como os espanhóis, franceses, ingleses e demais estrangeiros, que constituíam dois terços da população uruguaia.
Suas estâncias, porém, haviam ficado completamente despovoadas.
Foi então que, em 1866, Francisco José Collares fixou residência na Coxilha Negra, em Santana do Livramento, onde, até 1880, dedicou-se ao ofício de tropeiro, recolhendo gado das estâncias das Palmas para revendê-los a Thomaz José Collares e a outros estancieiros bajeenses estabelecidos na região dos arroios Corrales e Queguay-Chico, no departamento de Paysandú.
Era um ofício arriscado, pois a Campanha ainda continuava à mercê de bandos armados. Na verdade, os crimes na região, assim como os desmandos dos chefes políticos, continuaram ainda por mais de dez anos, devido à fragilidade dos governos que se sucederam no Uruguai. Essa situação durou até a ascensão de Lorenzo Latorre (1876-1880), que, investido de poderes ditatoriais, finalmente "limpió y pusoorden" no país, como contavam os antigos.
O livro no qual Francisco registrou suas tropas é interessante, também, por estampar as marcas de gado dos antigos fazendeiros das Palmas, bem como os preços dos animais e os valores dos salários dos peões contratados para a "reculuta".

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