ANO: 25 | Nº: 6334

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
20/06/2019 João L. Roschildt (Opinião)

Espelho, espelho meu

Em um futuro distante, creio que seremos reconhecidos como partícipes de uma época em que se buscava a normalização do absurdo. Com algum resquício de otimismo, julgo que as afastadas gerações vindouras, nos verão como seres demasiadamente conectados a redes que buscavam a socialização e, ao mesmo tempo, completamente desconectados da racionalidade. Dentro desse jogo de “soma zero”, o uso adequado do intelecto implicou necessariamente abandono completo dos processos ideológicos de massa, que oscilam entre o coletivismo asfixiante (qual não é?) e o individualismo inebriante.

Ainda sobre o registro desse tempo, pode ser acrescida uma dose cavalar de relativismo. Tal veneno tem o poder criar uma carcaça impenetrável aos conceitos de certo e errado ou de verdadeiro e falso, o que eleva o gosto individual à estratosfera das justificativas teoricamente “racionais”. Nessa poção mágica, que agrega elementos díspares e incapacitantes, a bruxa dos instintos mostra-se a mais apta a lidar com os flagelos mentais individuais e sociais, trancafiando, no porão das reflexões intelectuais, qualquer resquício da tradição.

No dia 26/05/2019, em Belo Horizonte, a empresária Jussara Dutra Couto, de 38 anos, celebrou o seu casamento... consigo própria! Tal prática, conhecida mundialmente como “sologamia”, teve, como grande ritual de estabelecimento de “laços” de compromisso, a declaração feita por Jussara de frente a um espelho no momento em que declarou amor próprio. Em um vídeo promocional de tal evento, disponível no YouTube, que começa com “é preciso ter força, é preciso ter raça, é preciso ter gana sempre” (poderia ser o início de uma preleção para algum jogo de futebol?), Jussara enfatiza que o grande amor de sua vida é, obviamente, a própria Jussara. Em resumo, pode-se depreender que não há nada de trocas, concessões, perdões, compartilhamentos ou juras de fidelização e auxílio mútuo, afinal, não há ninguém mais importante do que ela própria. Já em entrevista para o programa Balanço Geral MG, ao comentar como os defensores da tradicional família mineira criticariam o ato, Jussara e sua amiga Daniele justificaram que a “sologamia” era voltada para pessoas de mente mais aberta, mais modernas e que pensam para frente, pois seriam tais indivíduos que compreenderiam verdadeiramente a profundidade do processo.

Neste mundo cool, existem palavras-chave que possuem a capacidade de fechar o debate. Afinal, ser contra a tal insanidade mostra o quanto o crítico tem a mente fechada, é extremamente “medieval” e pensa de maneira retrógrada: em suma, é um parvo incapaz de vislumbrar a complexidade do ato. Na inversão de valores que busca preservar vontades em descompasso com o significado complexo que envolve a palavra casamento, não se sujeitar a aceitar os “sologâmicos” equivale a um retrocesso intelectual. Se os loucos tomam conta do hospício, resta a médicos e enfermeiros a pecha da loucura.

Esse teatro distópico faz parte daquele rol de carências infantis típicas dos contemporâneos: intolerância em aceitar rejeições, excesso de individualismo, inaptidão em conviver com discordâncias e a perda de sentido no compartilhamento da felicidade. É a (i)maturidade daquela criança mimada que não consegue brincar com as outras: resta-lhe a vazia solidão da fantasia de seus brinquedos.

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