ANO: 25 | Nº: 6334

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
27/06/2019 João L. Roschildt (Opinião)

Coronelismo ideológico

Uma autoimagem, muito bem maquiada pelo progressismo, transita ao redor de uma fantasiosa superioridade moral em seus discursos. Em razão disso, para a ampla maioria de seus adeptos, o esquerdismo possui uma face tenra, delicada e suficientemente amorosa para transformar o mundo em um lugar melhor. No reino das virtudes da esquerda, defender a igualdade, a diversidade, a tolerância e a “justiça social” (um enorme pleonasmo que presta serviços a baixo custo para as ideologias coletivistas) são as comprovações de seu ótimo caráter político. Aos seus antagonistas, resta-lhes a representação do “lado sombrio da Força”.

No entanto, o teste de “gravidez moral” de um progressista, aquele que comprova se o sujeito está ou não gestando as qualidades autoatribuídas, ocorre quando ele é submetido a uma real discordância. Não a uma divergência entre iguais, como comumente se vê. Mas sim àquela que opõe efetivamente os pensamentos. É nesse instante que as inúmeras “grávidas de Taubaté” mostram que não estão esperando dar a luz a quadrigêmeos.

O ex-candidato a presidente da República, Ciro Gomes, em 24/06/2019, protagonizou um disparate típico de... Ciro Gomes. Em uma entrevista ao Morning Show, da Jovem Pan, o também conhecido “coroné” Ciro, ao ser questionado pelo sereno Caio Coppolla a respeito da referência que havia feito, há um ano, ao vereador de São Paulo, Fernando Holiday (negro), designando-o de “capitãozinho do mato”, se aproveitaria a oportunidade no programa para reiterar a ofensa ou se retratar, ele disparou: “Não [...]; eu não ofendi ninguém. [...] é meu direito de cidadão, especialmente de cidadão da luta política, expressar minha opinião e meu antagonismo”. Apesar da oposição de “Cironel”, o fato é que ele foi condenado pelo Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo a pagar R$ 38 mil de indenização por danos morais ao mencionado vereador.

Mas o político, que é amplamente aclamado pela “intelectualidade” esquerdista universitária como um indivíduo altamente preparado para as funções públicas, mesmo que tenha afirmado, na época da última pré-campanha presidencial, que a Venezuela é uma democracia, não parou por aí. Na sequência de sua participação, ao comentar a ideia de Holiday para acabar com o Dia da Consciência Negra, “Cirão da Massa” não poupou críticas: “[...] um serviçal do branqueamento, um serviçal do preconceito [...] é um traidor da negritude”. Coppolla, com ar de espanto, indagou se um negro que é contra as cotas raciais poderia ser visto como um traidor da causa. Ciro, direto como lhe é de costume (um registro que também serve como elogio... sem ironias), foi enfático e declarou, com muita convicção, que um negro que é contra as cotas raciais e uma mulher que é contra as teses feministas, não podem ser vistos de outra forma que não traidores.

Para mentes utópicas e distópicas, que necessitariam de medicamentos para além do uso tópico, a adesão a determinadas agendas políticas fixa o grau de dignidade de um indivíduo. Para os portadores das flâmulas progressistas, a liberdade no uso das faculdades da razão é algo que nunca pode ultrapassar as cercas e arames farpados do coletivismo. Nada assombroso, afinal, uma das características fundamentais do esquerdismo é negar, na prática, tudo aquilo que defendem com uma linda e rotunda retórica.

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