ANO: 25 | Nº: 6385

Fernando Risch

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Escritor
28/06/2019 Fernando Risch (Opinião)

Todo barulho será mais alto com Bolsonaro

Corrupção existe, existiu e sempre existirá. No Brasil e em qualquer lugar do mundo. Em todas as classes sociais e profissões. Ela não acaba porque não tem como acabar, é inerente ao ser humano, mas pode ser atenuada. Quem não reconhecer isso está indo contra a realidade e criando expectativas falsas para seus interlocutores.

A apreensão de 39 kg de cocaína, sendo traficadas dentro de um avião da FAB, na comitiva do presidente Jair Bolsonaro, é um escândalo. Seria um escândalo com qualquer presidente, de qualquer partido, de qualquer país. Há de se dizer que Bolsonaro não tem responsabilidade sobre tal crime, assim como Temer, Dilma, Lula, FHC ou qualquer outro não teriam, mas há um agravante.

Quando se eleva as expectativas de algo, ainda mais expectativas irreais, messiânicas, a queda é proporcional ao que foi alçado. Quando alguém traz pra si termos de uma conduta específica e essa conduta é quebrada, o barulho é maior em relação àqueles que não fizeram as mesmas promessas.

Bolsonaro trouxe para si a imagem de imaculado, de intocado, como o homem mais honesto a pisar no planeta, que iria acabar com toda corrupção e criminalidade no País. Quando se aponta muito o dedo, esse dedo, sob hipótese alguma, pode se voltar contra si. Quando a pedra vira vidraça, a vidraça não pode se estilhaçar. A conduta tem que ser perfeita, como a imagem de Messias criada por e para Jair Messias. Isso serve a todos que fazem o mesmo, seja político ou militante.

O traficante-militar, preso pela polícia espanhola durante a revista das bagagens, viajou, além de Bolsonaro, com os dois últimos presidentes. Com Dilma foram quatro viagens em seis anos; com Temer, 14 viagens em dois anos; com Bolsonaro, 11 viagens em seis meses. Portanto, para o político que foi eleito sob a égide do justiceiro impávido e limpo, um escândalo de tráfico de drogas, num avião presidencial, embaixo do nariz, retumbará muito mais alto do que com qualquer outro, ainda mais quando a presença do militar nas comitivas de Bolsonaro é muito maior proporcionalmente a Dilma e Temer.

O outro agravante na situação, que vai de frente ao discurso do presidente, é a ideia propagada de que nas Forças Armadas não existe corrupção, discurso esse muito usado para defender a Ditadura Militar, que, como não se sabia da corrupção pela falta de liberdade, se alastra a ideia errada de que a corrupção não existiu. Assim como qualquer âmbito da sociedade, as Forças Armadas, por serem formadas por humanos, estão e serão sujeitas a escândalos e crimes.

A resposta do presidente ao ocorrido difere de seu histórico ideológico. Neste caso, sendo um militar o traficante, a nota de Jair Bolsonaro veio com elogios às Forças Armadas, falando de seu imenso contingente "formados nos mais íntegros princípios da ética e da moralidade", na tentativa de desfazer uma generalização que nunca foi feita. Para o criminoso, o presidente disse: "Caso seja comprovado o envolvimento de militar neste crime, o mesmo será julgado e condenado na forma da lei", num ato contraditório ao histórico de Bolsonaro relativo à presunção de inocência. O que aconteceu com o 'bandido bom é bandido morto'? Como o próprio Bolsonaro pediu, quando parlamentar, em 2006, a execução do brasileiro Marco Archer, preso por tráfico de cocaína na Indonésia. Quando Marcos foi executado, em 2015, Bolsonaro enviou moção parabenizando o presidente indonésio pelo ato.Traficante ruim é só o dos outros?

Assim será sempre que o tiro acertar um ponto nevrálgico da retórica bolsonarista, porque quem criou o alambrado dividindo o Brasil entre nós, os puros, corretos e ilibados, contra eles, os corruptos e sujos, precisa ser exemplo, numa conduta irreparável, senão o discurso se torna hipócrita ou mentiroso. Ou os dois. Levando em consideração a natureza da corrupção, inerte ou ativa, dentro da consciência humana, o discurso não se sustentará e mais virá pela frente, porque corrupção não se acaba; se combate prevenindo e punindo.

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