ANO: 25 | Nº: 6382

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
29/06/2019 Marcelo Teixeira (Opinião)

Intimidades, internet e hipocrisia

Atribui-se ao jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues a autoria da frase: "Se todos conhecessem a intimidade sexual uns dos outros, ninguém cumprimentaria ninguém". Tentei descobrir quando e em que circunstância esta afirmação foi feita, mas não consegui. Porém, partindo do princípio de que ela efetivamente foi feita por Nelson Rodrigues, e que ele faleceu em 1980, esta frase tem em torno de quarenta anos, época em que o PC da IBM ainda não tinha sido lançado, internet era um sonho distante e foto instantânea era sinônimo de Polaroid.
Hoje, os computadores pessoais só são menos populares que os aparelhos de TV, internet é cada dia mais indispensável e todas as fotos são instantâneas e produzidas pelos mais variados aparatos digitais. Isso tudo barateou e facilitou tanto o registro de imagens que muitos não resistiram a tentação de fotografar ou filmar até sua intimidade sexual e guardar estes arquivos digitais junto com as inocentes imagens do casamento da prima, do batizado da sobrinha e do aniversário da vovó.
Por razões que às vezes até a própria razão (e o bom-senso) desconhece, muitos destes arquivos foram parar na grande rede mundial de computadores revelando para o mundo aquele momento privado. Quase sempre as imagens expõem mais as mulheres, evidenciando que são feitas pelos seus parceiros, localizados estrategicamente atrás das câmeras. Mesmo quando aparecem nas imagens, normalmente os homens não aparecem tanto, nem tão à vontade quanto as mulheres. Outra evidência de que as imagens são feitas pelos homens é que, apesar de amadoras, os ângulos e as poses lembram muito as produções pornográficas profissionais, feitas, em sua maioria, por e para os homens. Salvo melhor juízo, esta habilidade masculina em produzir, dirigir e fotografar cenas íntimas protagonizadas por suas parceiras, revelam a natureza de ambos os sexos: homens tendem naturalmente ao voyeurismo (excitação sexual motivada pela observação da prática sexual alheia) e mulheres tendem naturalmente ao exibicionismo.
Tornada pública a intimidade do casal ou da mulher, o constrangimento é inevitável e duplo, ou seja, constrangimento pela revelação de sua intimidade e constrangimento por ter permitido o registro e, pior, por não ter tomado as devidas cautelas para impedir sua divulgação acidental ou intencional. Convenhamos, isso resulta de uma sucessão indesculpável de descuidos. É uma vacilada e tanto.
Ocorrida a tragédia, não há o que fazer. Aliás, talvez o melhor seja não fazer nada. Não "alarmar os gansos" pode ser a melhor estratégia para não despertar a curiosidade daqueles que jamais saberiam. Porém, mais surpreendente do que a "vacilada" de quem se deixa fotografar ou filmar é a reação puritana de algumas pessoas que acessam estas imagens. Tem gente que mesmo sem ver as imagens, não tarda a desfiar um rosário de adjetivos (normalmente dirigidos à mulher) que fariam Cicciolina corar. Falam como se nunca tivessem feito algo parecido na sua intimidade, como se aquilo praticado por aqueles atores amadores fosse algo reprovável, abominável ou inaceitável. Esta postura conservadora e moralista evidencia a atualidade da frase de Nelson Rodrigues citada inicialmente, ou seja, conhecer a intimidade sexual alheia, apesar de mais fácil hoje do que ontem, ainda envergonha os atores e os espectadores.

 

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