ANO: 25 | Nº: 6382

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
29/06/2019 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

O relógio de Kant

Todo o ser humano é dotado de dignidade e tem um fim em si mesmo diversamente dos seres desprovidos de razão que têm valor relativo e condicionado e se chamam “coisas”. Os seres humanos são “pessoas”, pois sua natureza já os designa com um fim, valor absoluto.
As expressões acima são mantras que o estudante de direito repete com peito estufado junto com as noções de “idealismo transcendente”, e dos “conceitos apriorísticos”, os que não nascem da experiência.
Quando adolescente mirava pequenos livros encadernados na biblioteca do pai – que lá ainda estão- e admirava seus os títulos: Crítica da Razão Pura e Crítica da Razão Prática que, manuseados agora, evocam cheiros e eras, mal imaginando que anos depois seriam repertórios das aulas de filosofia ou recentes leituras obrigatórias na preparação de dissertações e teses acadêmicas. Porque neste estágio antes de Rawls, Dworkin ou Hart vigora o império de Kant.
Immanuel Kant nasceu em Köningsberg (1724), então pertencente à Prússia, mas fundada pelos Cavaleiros Teutônicos, depois Polônia, Alemanha e hoje Rússia (atual Kaliningrado), famosa por suas sete pontes que ligam duas ilhas, motivo de solução matemática feita por Euler ante a versão popular de que todas podiam ser atravessadas de uma só vez.
Kant nunca saiu de Köningsberg, onde se educou. Sua família era de modestos artesãos. Foi professor secundário de geografia. Na Universidade estuda filosofia, física e matemática. Ali leciona Ciências Naturais. Em 1770 vira catedrático e com recolhimento e sabedoria escreve numerosas obras e se transforma no principal filósofo da era moderna além de apóstolo da Filosofia Moral. Recusa convites para outros grandes centros, diversamente de sábios como Voltaire, Rousseau ou Hume que eram viajantes contumazes.
Anotam seus biógrafos que Kant era conhecido pela banalidade de sua vida sedentária. E por suas rotinas. Tinha hábitos.
Era acordado por seu criado Lampe cinco minutos antes das cinco horas. Acomodava-se à frente de sua escrivaninha às cinco horas em ponto. Sorvia, então, uma ou duas xícaras de chá. Fumava seu cachimbo. Durante a manhã inteira preparava suas aulas e cursos até o meio-dia. Bebia, então, um copo de vinho da Hungria. Sentava-se à mesa às treze horas para o almoço. Depois, caminhava até a fortaleza de Friedrichsburg, percorrendo sempre o mesmo trajeto, tanto que os moradores da cidade apelidaram a rota de “caminho do filósofo”.
Sabia-se a hora que transitava sem necessidade de campanário: duas horas da tarde, ninguém precisava consultar o relógio. Ao contrário, muitos o corrigiam pela regularidade do passante. Às seis horas, depois de ler os jornais, retomava o trabalho em seu gabinete, sempre mantido a uma temperatura de quinze graus, alojando-se de maneira que ficasse sempre com a visão de um velho castelo, tendo se agastado, mais tarde, quando cresceram árvores que o impediram de desfrutar da antiga vista.
Por volta das dez horas da noite, um quarto de hora após haver deixado de meditar, deslocava-se para seu quarto, cujas janelas permaneciam fechadas durante o ano inteiro. Despia-se e se metia na cama com gestos peculiares que lhe permitiam ficar perfeitamente coberto toda a noite. Quando as necessidades o obrigavam a se levantar guiava-se por uma corda instalada entre a cama e a privada para não tropeçar no escuro.
No dia seguinte repetia a prática. Escrupulosamente. Sem falta. Entre a casa e o campanário. Religiosamente. Uma vida sem relevo, drama ou crise, como apontam seus seguidores.
Permaneceu solteiro a vida toda, nunca se apaixonou, não teve esposa nem amante sabida assim como Newton ou Robespierre. Não tinha criada, mas um doméstico, o fiel Lampe, que despediu quando soube que ia casar. Não convivia com sua numerosa família (nove irmãos, cinco chegaram à idade adulta). Não respondia as cartas de irmão pastor de determinado credo. Foi um celibatário convicto.
Todavia, anotam alguns, essa vida monástica acontece apenas depois dos sessenta anos quando lhe veio a celebridade. No início de seu magistério frequenta tabernas, jogava bilhar. Chegando a professor titular adquire sua casa, contrata um criado e tinha prazer em receber convidados para seus almoços. Sempre bem recebido em jantares de nobres ou domicílios onde era preceptor. Ocupava lugar de honra, pelo apreço que tinham à sua erudição. Era consultado em tudo.
Kant recebia pequeno salário da autoridade real como sub-bibliotecário, mas como professor trabalhava por conta própria, independente, sendo sua renda formada pelos honorários que os alunos lhe pagavam. No antigo sistema medieval os professores universitários eram pagos pelos alunos, tanto que ele tinha em sua casa um pequeno auditório que usava para as palestras ou locava aos colegas.
A sexualidade de Kant intrigava seus conterrâneos. Como se disse, permaneceu solteiro. Mas duvida-se que morresse casto. Apreciador da boa comida, vestia-se com alguma elegância, não deixava as mulheres indiferentes como revelam cartas recebidas de jovens atrevidas. Transmitia sensualidade embora não tivesse um físico sedutor. Recorde-se que foi mentor em muitas famílias, habitadas por amas e governantas.
Borowski, um de seus biógrafos, conta que recusou dois convites de casamentos de moças “dignas”. Idoso e mais rico opta por contratar Lampe, um antigo militar, um pouco simplório, como serviçal. Kant, mundano e casto, solitário e sociável, amante dos prazeres da mesa, mas não dos prazeres de carne, alude Jean Baptiste Botul. Morreu aos oitenta anos (1804).
Para o caderno de notas: - “Mesmo a mulher mais sincera esconde algum segredo no fundo de seu coração”. - “Não somos ricos por causa das coisas que possuímos, mas pelo que podemos fazer sem possuí-las”. - “A amizade é semelhante a um bom café: uma vez frio não se aquece sem perder bastante o primeiro sabor”. Grande Kant!

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