ANO: 25 | Nº: 6334

Dilce Helena Alves Aguzzi

dilcehelenapsicologa@gmail.com
Psicóloga
02/07/2019 Dilce Helena Alves Aguzzi (Opinião)

Antes sozinha na festa que com certas companhias

Muitas vezes ouvi a frase: Enquanto não aparece a pessoa certa, vou me divertindo com as erradas. Mais ou menos isso. O sentido está certo.
Pois bem, confesso que quase sempre que escutei isso fiquei incomodada, não entrou bem no meu ouvido. Refletindo sobre por que tal frase me perturba chego a conclusão que este “tipo de provérbio” foi criado por adolescentes para explicar que às vezes estão ficando com alguém que não consideram legal. Era o que tinha pra hoje...
Ou seja, é quase sempre a justificativa para uma atitude autodestrutiva típica de nossos tempos. Assim como parece que todos se referem com uma certa dose de piedade porque a “amiga”  passou uma festa sozinha. Não é bom ficar só, nem que este alguém seja uma “baita fria”. Neste caso, a pessoa errada é errada não porque não preste ou seja isso e aquilo, mas simplesmente porque não é o que se quer, não tem aquelas características que procuramos. A “pobrezinha” sem saber está enquadrada na categoria dos “não tem tu, vai tu mesmo”. Sem dúvida, é uma associação que por mais passageira que seja está fadada ao fracasso.
Saliento que sucesso num relacionamento não se mede apenas pelo tempo de sobrevivência, mas,  sobretudo pelo nível de aprendizado e autoconhecimento que proporcionou.
Voltando à frase, fica evidente outro aspecto negativo. Parece que hoje temos dificuldade em experimentar momentos divertidos sem estar na presença de outra pessoa. Realmente percebo que está aí o problema. Quando alguém não consegue ser feliz com, e apenas, sua própria companhia surge uma necessidade tão grande que ofusca a importância da seleção. Banaliza-se tanto a questão que acaba se resumindo a outra frase feita – qualquer coisa é melhor que nada.
Mas, espere um pouco!, estamos falando de pessoas e de relacionamentos. Nenhuma frase importada daqui ou dali vai justificar nossas escolhas. Se é preciso justificar é por que algo já não vai bem e estamos tentando enganar não aos outros, mas a nós mesmos.
Tudo bem. Se você é daqueles que pensa que a vida é uma festa e não podemos perder tempo escolhendo, temos mais é que nos divertir, quem sou eu para dizer que está errado. Se você já utilizou esta frase ou outra parecida pense a respeito e responda sinceramente estas questões.
- Porque para se divertir é necessário estar acompanhado?
- Alguma vez você se sentiu feliz apenas por existir como indivíduo?
- Você acredita que existe a pessoa certa para você?
- Suas atitudes, que são aquilo que os outros podem perceber, fazem de você a pessoa certa para quem?
- Será mesmo que existe “a pessoa”, aquele ser perfeito para nós que está lá (não se sabe onde) nos bastidores da vida esperando que a gente se divirta um pouco primeiro e depois “tchanam”! Entra em cena e “vamos ser felizes?”
A maior responsabilidade é tentar descobrir quem somos e em quem estamos nos transformando com nossas escolhas atuais. A partir daí vamos tendo a condição de perceber primeiro quem não contribui para o tipo de vida que queremos e depois, sim, a afinidade pode falar mais alto...
E se, pessoa certa de fato existisse e nos encontrasse em plena curtição com a errada, será que iria nos reconhecer?

 

Estamos tentando enganar não aos outros, mas a nós mesmos...”

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