ANO: 25 | Nº: 6331

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
04/07/2019 João L. Roschildt (Opinião)

Master chef of disrespect

O sacrilégio contra a inteligência é a veneração da estupidez. Na observância da perturbadora Via Crucis da razão, são fartas as ofensas e dilacerantes os açoites. Na vigilância de sua crucificação, são excruciantes as chagas no intelecto. Porém, é na transcendência da verdade que se vislumbra a imanência da ignorância.

No dia 28/06/2019, o famoso cozinheiro Henrique Fogaça divulgou uma foto “adultescente sem causa” em seu Instagram, que causou ruidosa indignação. Nela, Fogaça, trajando uma camiseta em que duas mulheres “fantasiadas” de freiras se beijam na boca, aparece abraçado fraternalmente entre duas sorridentes freiras. Em anexo a tal fotografia, havia as seguintes hashtags: “pedindo a bênção”; “orai por nós”; “blasfêmia”; “o choro é livre”; e “fuck hipocrisia”. Após enorme repercussão negativa, o brilhante e rígido jurado do programa “MasterChef Brasil” apagou a fotografia de sua rede social.

No contexto do retrato publicado, deve ser acrescentado que o mestre-cuca estava passeando pelo Vaticano, o que mostrou sua veia hardcore de “lacração”. Afinal, provavelmente seria moleza viajar até um país teocrático-islâmico qualquer, ofender Maomé e sair de lá sem maiores problemas no tocante à sua vida e liberdade, não é?

Pouco tempo antes, no stories de seu Instagram, Fogaça divulgou vídeos desconexos sobre seu passeio cristão. Fazendo questão de manter a filmagem bem na linha de sua camiseta, ele disse: “Bom, hoje é dia de se confessar aqui com o Papa [...] será que ele vai me redimir?”. E prosseguiu: “Bom, saindo aqui do Vaticano, fiz a confissão com o padre, tá? Ele me perdoou, mas ele questionou a camiseta. Eu falei, ô Papa, o seguinte, cê tá desatualizado, o mundo hoje tá assim. [...] Só estou falando uma realidade da vida, certo?”. Ao final, ele reforça o quanto algumas pessoas que “não têm a cabeça boa” acabam sustentando financeiramente aquele império (que ele estava visitando de livre e espontânea vontade, diga-se de passagem). E finalizou: “A Igreja é um órgão político que visa muito dinheiro pelo fanatismo e pela crença das pessoas”.

Depois de todo alarido crítico, Fogaça disponibilizou um vídeo em que tenta justificar a retirada da fotografia de sua rede social. De acordo com ele, não houve qualquer desrespeito de sua parte, afinal, desrespeitosas “são pessoas desonestas, [...] que matam, roubam, [...] mentirosas”, flagelos que não lhe tocam, pois o cozinheiro alega ter valores, boa educação, ser autêntico, verdadeiro e real. Já no Twitter, em outro vídeo (com parte do Vaticano ao fundo), Fogaça pede desculpas a toda Igreja Católica e aos cristãos, enfatizando que somente Deus poderia julgá-lo. Na legenda do respectivo material, ele declara: “Fui infeliz em expor meus pensamentos. Quem perdoa cresce. Quem é perdoado renova-se”. Ou seja, nesse engodo, Fogaça continua pensando da mesma forma, até porque a sua “infelicidade” foi somente ao expor suas ideias.

A incompreensão bestial quanto à relevância da Igreja na preservação dos valores ocidentais caros ao mundo contemporâneo, tais como a liberdade, e a total falta de noção sobre as inúmeras obras de caridade mantidas pelo catolicismo, é uma amostra do apedeutismo de nossa época. Mas, tudo isso serve para ver o quão poderoso poder ser um bíblico “Pai, perdoa-lhes! Eles não sabem o que fazem!”

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