ANO: 25 | Nº: 6358

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
06/07/2019 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Adeus, Mariana

Corria o ano de 1946. Em que o país ganha uma de suas melhores Constituições. Getúlio havia sido deposto pelos militares e Dutra o sucede no governo. Os jogos de azar eram proibidos a pedido da mulher do presidente eleito. Em fins do ano anterior, em vista da chamada "Revolução Democrática", que destituíra Vargas, assume a Interventoria, em Bagé, o Dr. Mário Araujo, até 1º de fevereiro de 1946, quando é designado o doutor Jerônimo Mércio Silveira, em vista da vitória do PSD nas eleições gerais; e que deixa o cargo em 22 de novembro para se candidatar a deputado estadual, sendo substituído pelo senhor Gil de Souza.
Em meados de 1946, os lares bajeenses começam a se acostumar com uma novidade: o som da Rádio Cultura. Música, notícias, programas de futebol, locutores com vozes provectas e sérias. O programa da Casa Ramos, depois do almoço. E dá-lhe "Adeus, Mariana" com Pedro Raymundo.
Pedro Raymundo nasceu em Imaruí, Santa Catarina, em 26 de junho de 1906, filho de pescador e gaiteiro. Sua mãe morre cedo, vítima de tétano após pisar num prego enferrujado. Menino, ganha do pai uma gaita de oito baixos. Aos 18 anos organiza banda para animar festividades, mas seu pai tem a orelha arrancada numa briga com um dos integrantes do conjunto Desgosto. Pedro abandona a cidade natal virando mineiro em Blumenau e ferroviário em Lauro Müller, aonde sofre acidente que inutiliza seu polegar direito nas obras da estrada de ferro D. Teresa Cristina. Casa-se, mas o filho morre de desidratação. Torna-se balconista em Laguna, integra um grupo de choro. A esposa engravida e perde outra criança. Depois de uma aventura extraconjugal, muda-se com a esposa para Porto Alegre, aonde nasce e sobrevive seu filho Jecy. Trabalha na Cia Carris Porto-Alegrense, como motorneiro, depois inspetor de tráfego, guarda-freios e cobrador. Nas horas vagas, anima os cafés no Mercado Público, como membro do Jazz Carris. Por concurso ingressa no Arquivo Público Estadual como contínuo. Junto a Zé Bernardes e Osvaldinho, cantores regionais, forma com outro companheiro o Quarteto Os Tauras, sendo contratado para programa próprio na Rádio Farroupilha, concebendo e encomendando um novo tipo de gaita, ou gaita xadrez, com teclado especial que facilita a execução mesmo sem ouso do polegar. Compõe bastante e excursiona pelo interior do Rio Grande, Santa Catarina e Paraná e vai para o Rio de Janeiro só, pois seus parceiros não quiseram acompanhá-lo. Disputa programa de calouros na Rádio Mairynk Veiga, vestido de bombacha, botas, esporas, guaiaca e chapéu quebrado na testa. Alavanca a toada "Gaúcho Alegre" passando a ser conhecido com tal apelido. Em 1944, grava "Adeus, Mariana", que se torna sucesso nacional. Integra programas com Brandão Filho, Walter D´Avila, Ary Barroso, Luz del Fuego, Jararaca e Ratinho. Atua, também, nas Rádios Tupi, Tamoio, Guanabara e Globo, sendo contratado, também, por Almirante para a Rádio Nacional. Até 1958, chega a gravar mais de 60 discos de 78 rpm. Torna-se amigo de Getúlio Vargas, para quem compõe o "Pingo Mulato", em homenagem ao cavalo preferido de Vargas. Em 1948, é contratado pela Rádio Tupi de São Paulo e participa do filme " Uma luz na estrada". Aparece na capa da Revista do Rádio. Interpreta outro filme "Nobreza Gaúcha". O polegar começa a perturbá-lo, sendo operado pelo doutor Lutero Vargas, filho de Getúlio, o que impede o dedo arruinado de mais o prejudicar. Fica dois anos fora sendo ultrapassado em popularidade por novos astros já em época da televisão e outros gêneros musicais. Deprime-se, sua situação financeira se complica, obriga-se a alienar bens. "Adeus, Mariana" é lançada em vinil, sem repetir o sucesso. O dedo o incomoda cada vez mais. Um disco com seu nome e com valsas também não é retumbante. Surge Teixeirinha e seu "Coração de luto". A moda dos festivais afasta o gosto pelas músicas regionais. Pedro volta para Porto Alegre e para a Rádio Gaúcha. Beatles e Jovem Guarda arrebentam. Enquanto algumas gravadoras lançam discos com seus sucessos, Pedro é abafado pelo sucesso de José Mendes e seu "Pára, Pedro". Volta para Santa Catarina, de onde viaja apenas para comandar seu programa radiofônico. Já enxerga pouco. Época da Califórnia da Canção. Recebe o título de Cidadão da Guanabara (1971) e de Cidadão Lagunense (1973). Em 1973 morre de câncer no Hospital da Lagoa, no Rio de Janeiro, fato que a imprensa registra em poucas linhas. Pedro foi o primeiro artista pilchado a chegar com a música e cultura do Rio Grande no Rio e tornar-se um nome nacional, condição que alguns dizem haver sido seguida, depois, pelo Gaúcho da Fronteira, seu sucessor em alegria e humor.
Pedro Raymundo era maçom, tendo sido obreiro da loja "Trabalho e Liberdade", constituída por artistas, músicos e radialistas, e que tinha como simbólico o número 7, pois tal oficina fora criada em 7 de maio, então Dia do Trabalho, antecedendo sete dias de 13 de maio, quando se comemora a Libertação dos Escravos, daí a razão de sua dupla denominação. Por divulgar a cultura do Rio Grande, em 1948, recebe homenagem da Loja Luiz Invisível nº 219,de São Borja, no Café Internacional daquela cidade.
Luiz Gonzaga, o Gonzagão, também grande sanfoneiro e maçom, em entrevista ao jornal Pasquim, narra que teve em Pedro Raymundo uma de suas inspirações, sublinhando: - "quando eu mandei buscar meu chapéu de couro no sertão eu já estava vendo Pedro Raymundo na Rádio Nacional, abafando. Aquele gaúcho alegre, tocando, dançando, improvisando, fazendo versos e conversando, contando prosa. Eu disse 'ah, meu Deus do Céu, ele no Sul e eu no Norte. Vou imitar, mas ninguém vai perceber que eu estou imitando. Ele é gaúcho e eu vou ser cangaceiro. Eu queria cantar o Nordeste, eu já estava cheio daquela gravatinha. Então, encostei o burro em cima de Pedro Raymundo". Sérgio Reis regrava "Adeus, Mariana" em 1984. Israel Lopes e Vítor Minas escreveram a biografia de Pedro Raymundo.
Desculpem, mas nesta madrugada escuto o domingueiro Rádio Baile pelas ondas da Cultura ainda ressoando um - "Nasci lá na cidade, me casei na serra/ Com minha Mariana, moça lá de fora/ Um dia estranhei o carinho dela/ Disse: Adeus, Mariana, que eu já vou embora". Saio à procura do par. Pois é.

Leituras: "Som do Sul. A história da música do Rio Grande do Sul no Século XX", de Henrique Mann. Porto Alegre: Tchê, 2002."O Maçom Pedro Raymundo: Um Gaúcho Alegre", O Delta. Revista Oficial do Grande Oriente do RS. Ano 100", nº 09, 2017.

 

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