ANO: 25 | Nº: 6283

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
06/07/2019 Marcelo Teixeira (Opinião)

Generalizações x Generalizações

Existem respostas que não respondem e como melhor exemplo deste fenômeno retórico cito sempre a resposta de um desconhecido à complexa questão de definir “bom senso”. Diante deste desafio, o desconhecido teria respondido: “Bom senso é a qualidade daqueles que pensam como eu.”
A tentativa de identificar o que pode e o que não pode ser regulado por uma lei, oportuniza o surgimento de uma resposta igualmente vaga que não responde a questão, apesar de propor uma interessante reflexão. O que poderia, então, ser regulado por uma lei? A resposta que “não responde” diz que uma lei só pode ou deve regular ações humanas que possam repercutir em outras pessoas ou na coletividade.
A grande e subsequente questão que deriva dessa resposta é: E existe alguma conduta humana que não repercuta em outra pessoa ou na coletividade? Há quem veja a questão com simplicidade e acredite que não seja difícil distinguir entre aquilo que pode e aquilo que não pode ser objeto de regulamentação legal. Todavia, há quem veja a questão de forma mais complexa, chegando a acreditar que todas as condutas humanas, potencialmente pelo menos, podem repercutir nos outros. Partindo deste entendimento, qualquer conduta poderia ser objeto de regulamentação legal ou de apreciação judicial.
O recente assassinato do menino Rhuan Maycon, com requintes que vão muito além da crueldade, ocupou as redes sociais com muita gente cobrando uma repercussão maior, visto que julgam ter repercutido pouco diante da gravidade do crime. Várias postagens sugerem que isso se deve ao fato do crime ter sido praticado por duas mulheres que viviam em união estável, sendo que uma delas era a mãe biológica do menino. Decorrência disso, o caso não teria recebido a devida atenção da mídia graças a uma suposta influência dos defensores e simpatizantes da causa LGBT, infiltrados nas redações jornalísticas mais importantes do País. Sugerem, então, uma espécie de corporativismo muito influente na grande mídia nacional que teria “abafado” o caso, exatamente para não macular ou melindrar a causa nem seus militantes, integrantes ou simpatizantes.
Mais uma teoria conspiratória, que tenta ganhar corpo diante da inexistência de uma explicação plausível para o fato do caso não ter sido mais destacado nas pautas jornalísticas. Todavia, seja pelos fatos, seja pelas especulações, percebe-se que, hoje, mesmo um fato isolado, excepcional, protagonizado por pessoas francamente desequilibradas, pode ir muito além da pobre vítima desta monstruosidade, atingindo indiretamente uma enormidade de pessoas sem nenhuma ligação com o caso, ou seja, o fato das assassinas serem lésbicas pode ser usado com a finalidade de reforçar preconceitos contra todas elas. Da mesma forma, se as teses conspiratórias forem procedentes, o abafamento do caso decorreria de uma ação coordenada bastante abrangente e complexa, exigindo o envolvimento de muita gente também.
Não é diferente quando um padre ou pastor é flagrado abusando sexualmente de crianças ou fiéis. Não faltarão fariseus para apedrejar a igreja e a religião como um todo. Quando um homem bate em uma mulher, a demonização de todos os homens é inevitável. Quando um rico explora um pobre, todos os ricos são taxados de exploradores. E assim por diante! Em resposta, as vítimas de generalizações não resistem à tentação de generalizar seus acusadores, criando um círculo vicioso onde generalizações são combatidas com generalizações. Uma desinteligência que, via de regra, além de desonesta é injusta em função da dimensão que um fato isolado pode tomar, atingindo inocentes que nada tem a ver com o caso.

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